Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Ai se eu te pego

Este bocado de texto foi escrito à mão nas primeiras horas da madrugada de hoje.

Ora bem, por paciência a mais, as coisas não mudam. Tenha paciência, tenha paciência, e fica tudo na mesma. E a minha paciência tem-se reduzido bastante. Cada vez que olho para a televisão, ou algo do género, o meu stock de paciência baixa.

Enquento isso, na Europa produz-se merda a ritmos nunca vistos. E a merda de melhor qualidade da Europa, pelo menos ultimamente, tem sempre um cérebro alemão por detrás, desde a señorita Merkel, ao novo presidente do parlamento europeu, o Sr. Martin Schulz. Este mesmo senhor que protagonizou uma memorável cena há uns anos atrás nesse mesmo parlamento europeu com il Cavaliere, Silvio Berlusconi, agora ensinou-me uma palavra em alemão, o vocábulo que significa declínio. Mais, ensinou-me que esta palavra e Portugal combinam muito bem. Mas o grande homem alemão, digamos assim, ainda é uma mulher, e que também se esqueceu de onde termina a fronteira alemã. Entretanto, por cá, o senhor Ervas, hey sorry man, ando a pensar em erva, o senhor Relvas, fez aquilo a que os media costumam chamar de desvalorização das declarações de outrém. Eu percebo pá, que tens de manter o teu status quo pá, que tens de continuar a ter a comunicação social toda na pata pá, como se viu no curiosamente abafado caso do Pedro Rosa Mendes, cujo espaço na rádio pública foi suspenso, eu compreendo pá, mas vai-te a eles Relvas, ou pelo menos a ela pá, à Merkel. Já sabes que nós portugueses adoramos a senhora. Se não fores tu, alguém irá pá. Talvez até eu pá. Adoro-te Merkel. Ai se eu te pego, Angela.

Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

In Nomine Dei

Ora bem. Dia 1 de Janeiro do corrente, se bem me lembro era capaz de ser aí 2 horas da noite. Três mininos sentam-se na soleira de granito (para ser mais preciso não foi bem na soleira da porta, foi um bocadinho ao lado) de uma igreja existente na cidade invicta, no Carmo. Só aqui, vejam bem, já é difícil escolher, porque acontece que o senhor possui muito terrenos naquela zona da cidade, e algumas vozes perspicazes perguntarão: Qual igreja, pá, há duas, pá, paredes meias uma com a outra, pá? Era a segunda para quem sobe, a Igreja dos Carmelitas. Até que apareceu uma personagem, vinda do interior do templo. Uma senhora que, qual fantasma daqueles que aparecem nos livros, emanou à porta da dita casa do senhor. Depois de uma série de vocábulos que nós não entendemos lá muito bem, eis que percebemos inequivocamente que ela nos estava a mandar bazar, e para irmos conversar, beber, enfim, vaguear para outro lado. Deve ter visto as crenças religiosas estampadas nas nossas caras, ou então confundiu-nos com o Che ou com a Rosa Luxemburgo. Tive quase para ir ao outro lado da rua comprar um Favaios para oferecer à dita senhora. Quem diz Favaios, diz une cigarrette, erva, ou o que ela quisesse, porque eu senti pá, senti deus, porque ela estava a mandar-nos embora In Nomine Dei. Ouvi a voz dele "Come on brothers, go away" é que deus fala em inglês por causa da globalização. Estava a brincar evidentemente, não senti nada, mas achei o episódio estranho. Então não se fazem grandes festas dentro daqueles estabelecimentos pá, em que as pessoas socializam perante um presidente que faz um discurso daqueles très longue à Fidel Castro, cantam cantigas juntas, e às vezes até dão beijinhos umas às outras, e nós que ali estávamos civilizadamente a socializar, não podemos pá? Foi um episódio giro e engraçado daqueles que me fazem pensar que se deus existir, deve de se mijar a rir com aquilo que alguns indivíduos dizem e fazem cá em baixo.

Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

Suck it and See

Neste post refiro-me aos Arctic Monkeys. Ora bem, convém afirmar logo a minha posição à partida: eu não era fã dos Arctic Monkeys. Primeiramente, não conhecia exaustivamente a discografia, e então também não podia dizer que não gostava da banda, pois estaria a dizer algo sobre música que não conhecia, pelo menos exaustivamente. Conhecia algumas músicas, e simpatizava com algumas, mas o certo é que elas também não me tinham chamado à atenção, atenção essa que se iria materializar na audição mais profunda, isto é, ouvir os discos.

Ora bem, isto mudou um pouquito em Junho último, aquando do lançamento de 'Suck it and See'. O facto de estar a sair um álbum novo fez-me pensar que era uma boa oportunidade para ouvir música deles mais a sério, e tentar entrar mesmo na música e compreender do que a banda é feita, foi vamos lá pá, vamos lá ouvir a música deles em condições. Ora bem, antes do disco tocar, olhei para a capa. Hoje em dia ninguém liga a estas merdas, e eu até sou o primeiro a dizer "Não julgues um álbum pela sua capa". Mas o que é certo é que existe uma correlação notável entre bons discos e boas capas. O prisma dos PInk Floyd, os Queen mergulhados na sombra, o monstro dos King Crimson, as paisagens inconfundíveis do Roger Dean, a banana de Andy Warhol, ou a caveira do Oxygène do Jean-Michel Jarre, que tenho dependurada na parede do meu quarto. Experimentem, mas regra geral é difícil dissociar a qualidade da música da qualidade e da permanência na mente da imagem que lhe serve de rosto visual. Ora bem let's roll the tape back. Ao ver a capa do Suck it and See, gostei do que vi. Não tem muito de especial, é certo, não é extraordinária, mas sem sombra de dúvida não é uma das piores de sempre, conforme uma revista qualquer lançou numa daquelas estúpidas listas que volta e meia essas revistas precisam de fazer para que os fãs do número 1 comprem a revista. Devem ter tudo combinado, de tal modo que a cada não sei quantos meses, actualizam a lista e vão trocando os primeiros, assim revezam-se todos na liderança. Roll back again. Instantaneamente lembrou-me a capa daquele que é vulgarmente designado por "The White Album" dos Fab Four. E eu gostei da simplicidade, e tem impacto.

Passamos para o interior do rosto do álbum e vem a música. Acontece que eu adorei o que lá está dentro. 40 minutos de músicas curtas. Ouvi Rock muito bom, com um som vintage, absolutamente clássico, nalgumas harmonias vocais, nos timbres das guitarras. As músicas curtas vão passando com um som que eu gostei bastante. Esse carácter clássico e vintage da música faz-me pensar: se esta treta estiver bem gravada, que maravilha que deveria de ser ouvir isto em LP.

Este álbum foi das coisas que mais gostei de ouvir no ano que recentemente terminou, e assim continua a sê-lo. Já posso dizer que gosto dos Arctic Monkeys, ou então se tal for exagerado, que gosto deste álbum. Passarei aos outros em breve, mas já o sei, cá dentro, que será difícil superar este. Pelo que sei, os críticos não gostaram muito, não deve haver muitas pessoas neste mundo que julguem este álbum como muito bom, e ao que parece ao gostar muito deste álbum, eu estarei a ser um atípico fã dos Arctic Monkeys. Não faz mal, que já estou habituado a ser atípico em questões musicais. Podia ter escolhido outra música, mas optei por esta, "Black Treacle".



Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

Espaço XYZ

Musical Box is proud to present a brand new 3-dimensional vector space/blog (further extensions in dimension are being considered), created by a a fellow mathematician:

Espaço XYZ

Visit and Enjoy!

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

The Velvet Underground & Nico

New York City, 1967. Os Velvet Underground são uma banda instalada na "The Factory", o famosíssimo estúdio de Andy Warhol. Os Velvet sempre tiveram e procuraram um estilo musical experimental e provocador, um pouco à imagem daquilo que se fazia no mencionado estúdio, onde se incluem os agora célebres eventos "Exploding Plastic Inevitables". Lou Reed está ao leme. Lou Reed é uma daquelas figuras que toda a gente já ouviu ser mencionado nas letras do Chico Fininho, mesmo sem saber quem ele é. Em 1967, juntamente com a cantora Nico, dá-se o lançamento de "The Velvet Underground & Nico", o álbum da banana. Ninguém deu conta disso na altura. O tempo tornou este álbum e a banda como um dos mais importantes momentos na história do Rock. E a sua influência é notável, são inúmeros os artistas que se revelaram influenciados de algum modo por este álbum. Uma frase, por vezes (se calhar, erradamente) atribuída ao grande Brian Eno reza o seguinte: "The first Velvet Underground album only sold 10,000 copies, but everyone who bought it formed a band."

A capa é marcante, mas é apenas o início da viagem, antes de se retirar o vinil do seu interior. A banana que lá vem representada tem um autocolante, e na ponta da banana, em letras pequenas diz, "Peel Slowly and See". Por baixo, está a banana descascada. Pega-se na bolacha preta, bota-se a agulha a correr nos grooves. Ouve-se o som de celesta, e está a tocar a primeira faixa, "Sunday Morning".

O ecletismo dos Velvet é simplesmente arrasador. A seguir à primeira faixa, (uma música de um pop soft, muito bem feito, a celesta dá um toque ligeiramente psicadélico muito especial), vem "I'm Waiting for the Man" e parece que mudamos de álbum. Esta segunda faixa é um exercício de música típica de Rock de garagem, proto-punk. A terceira chama-se "Femme Fatale", outra música mais soft, e é nesta que somos atacados pela primeira vez pela voz da Nico, e o que podemos dizer é que a voz dela é deveras estranha. A seguir vem a minha preferida "Venus in Furs". A dureza e a aspereza do som regressa com a batida constante, a cacofonia do violino do John Cale, e a guitarra do Lou Reed com a afinação que ele inventou, onde todas as cordas tocam a mesma nota, mas em oitavas diferentes. As letra exemplificam o carácter provocador que já referi, e são inspiradas no livro com o mesmo nome do alemão Sacher-Masoch, que eu diria que é uma espécie de Marquês de Sade francês, e cujo apelido originou o vocábulo masoquismo. Voltamos ao Rock anunciador do Punk, em "Run Run Run", e o lado A termina com "All Tomorrow's Parties", de novo com a voz de Nico, uma música extraordinária, e segundo algumas fontes, o manager Andy Warhol dizia que esta era a melhor criação do grupo. Em todas estas faixas o vanguardismo sonoro e a experimentação estão à espreita. O lado B começa com Heroin, esta uma música tipicamente à Lou Reed, em que ele vai falando do consumo de heroína. Fabulosa música. Seguem duas faixas um pouco mais convencionais, mais ao estilo do pop/Rock psicadélico que se praticava na época: "There She Goes Again" e "I'll Be your Mirror", esta última que também conta com Nico. O disco finaliza com "The Black Angel's Death Song" e com "European Song", que são possivelmente as duas músicas mais experimentais do álbum.

Pela primeira vez que ouvi este álbum, há já muitos anos atrás, não gostei muito. Eu tenho o hábito, (e que infelizmente hoje já não se usa) de gostar essencialmente de álbuns, e como não gostei lá muito daquele, foi para a gaveta, apesar de se calhar até existirem algumas músicas (se bem me lembro aquelas mais pop) de que eu tenha gostado. Não gostei dele como um todo, e esta maneira de gostar assim no todo é o meu critério para gostar ou não de um artista, e daí que eu ache estranho quando alguém diz gostar muito de uma banda, mesmo quando se trata de uma banda que não me diga muito, e afinal eu ainda conheço muito mais música dessa banda do que o pretenso grande fã. Mas isso sou eu, e voltemos ao assunto. Na verdade, só gostei à segunda audição e passei a idolatrá-lo. O que causou isso foi um momento "Late Night", penso que no verão, em 2006 ou em 2007, em que passou no VH1 o "Venus in Furs", numa versão ao vivo do Lou Reed. E perguntei-me se aquela música que me deixou parado no tempo a meio da noite estaria naquele disco da banana? Estava mesmo, e no dia seguinte ouvi-o outra vez, e senti que aquilo era uma obra-prima.

Pode não o ser para outras pessoas, mas como o foi para mim, e eu adoro, recomendo. Mesmo que quem oiça não gosto, acho que vale a pena o risco.



Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Sandinista!

Esta breve prosa foi escrita na passada sexta-feira, dia 18, num banco da faculdade de Ciências da UP.

A Santíssima trindade da música Punk, no sentido daqueles que praticamente o 'fundaram' e que mais influência exerceram no estilo e não só, é constituída, a meu ver, por Sex Pistols, Ramones e The Clash.
Desta tríade, os meus preferidos são os Clash, seguidos dos Ramones, apesar de entre as três bandas ser os Clash serem provavelmente aquela que menos representa o estilo. O estilo e a roupagem Clash estendem-se para lá daquilo que comummente se encontra associado à música dita Punk. Os Sex Pistols tiveram o tempo de vida mais curto, mas muito possivelmente são a que mais caracteriza o estilo, são talvez a ultimate Punk band. E os Ramones têm, se a assim se pode dizer a paternidade do género, pois são geralmente tidos como a primeira banda punk, apesar de já existirem antes bandas que anunciavam a vinda do estilo, como os Stooges, com o Iggy Pop, ou os MC5 e o seu lendário álbum "Kick Out the Jams"
, e, claro, os New York Dolls. Esta ideia de ver os Sex Pistols como o mais puro punk deve-se creio, ao facto de serem a que teve o tal tempo de vida mais curto. Apenas lançaram um álbum e o tempo foi muito curto para que na música ocorressem mutações sónicas, algo que inevitavelmente teria de ocorrer caso a banda durasse mais tempo e a matriz original caminhasse para a saturação. A juntar a isso, também há o facto de os Clash os Clash e os Ramones serem musicalmente, claramente superiores aos Sex Pistols.
Sob este prisma, os Clash são aqueles que se calhar, deste grupo até menos representam o universo Punk, de modo análogo ao que, muitos anos despois, se verificaria com os Pearl Jam, que já referi em post anterior, que sendo oriundos do Grunge, se diversificaram musicalmente, e também não são os mais representativos deste estilo a partir do qual começaram, (aqui o título de mais representativo fica muito possivelmente com os Nirvana, que também duraram pouco tempo).

Voltando aos Clash, creio que esta minha visão das coisas se torna evidente quando se escuta a obra-prima da banda "London Calling", ou quando se ouve, e aqui vou-me focar mais neste disco, o álbum triplo da banda, "Sandinista!" de 1980. Logo pela primeira faixa, "The Magnificent Seven" ouvem-se sintetizadores, pianos eléctricos, um swing diferente, laivos de raggae e rap and other things. A mesma coisa se vai notando nas outras músicas, desde o hit single "The Call Up", com os efeitos sonoros a aparecerem, em contraste com o punk original, geralmente muito low-tec, ou pior do que isso (a qualidade dos músicos dos Sex Pistols, por exemplo é mais do que duvidável, os Clash eram indubitavelmente muito melhores músicos), ou os xilofones de "Washington Bullets". A instrumentação mudou, o estilo idem.
Por isso, "Sandinista!" é uma mescla de correntes, desde o ska, a coisas oriundas de outros pontos do globo. O título esse também o foram buscar ao outro lado do Atlântico, o nome de um grupo revolucionários da Nicarágua, os lendários Sandinistas.

Conclusão a tirar: os Clash saíram de Londres, quer no título dos álbuns, quer no conteúdo. E só para acabar caso ainda não tenham reparado, gosto muito de Clash, gosto muito do "London Calling", e claro, se me perguntarem se sou Sandinista, sou sim senhor, mesmo não tendo nascido em Manágua, este álbum tratou de me tornar num Sandinista. Oiçam também.


Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

Achtung!

Não devia ter deixado passar. Há dois dias atrás, no sábado, dia 19, passaram vinte anos sobre o lançamento de um dos maiores álbuns de sempre, o 'Achtung Baby!' dos U2. Este álbum marca um antes e um depois na vida dos U2, e na música moderna. Não estou com paciência para estar a falar sobre o álbum em maior detalhe. Apenas sugiro que o ouçam, caso nunca o tenham feito, ou o oiçam outra vez, porque vinte anos depois, continua com a mesma ou maior frescura do que da primeira vez que o ouvi, e isto é o que costuma acontecer com aqueles álbuns que perduram no tempo e que são imortais.

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Une Liste

Ora bem, vou fazer uma lista. Costumo dizer que gosto de listas, mas das feitas por mim. Num certo sentido é verdade, noutro é mentira, pois eu de facto, às vezes, também gosto de listas feitas pelos outros. Gosto do making da coisa e da síntese e de ver certas coisas associadas. As listas favorecem a comparação entre coisas, desde que não hajam assim muitas omissões. Só costumo detestar as listas da Rolling Stone, mas enfim, isso lá nos dá mais um tema de conversa para estar a malhar nas escolhas dos redactores da lendária e saudosa revista. Só me recuso terminantemente a listar o melhor de todos os tempos, seja esse melhor um filme, um álbum ou outra coisa qualquer. Mas gosto de listar aqueles que para mim são os melhores.

Neste post listo os álbuns que mais me satisfizeram nesta primeira década do novo século. Vão com certeza existir omissões que, caso sejam detectadas por mim, serão corrigidas em posts futuros.
Notas: As minhas listas são sempre corpos não ordenados, isto para formular a coisa matematicamente.

Belle Chase Hotel - La Toilette des Étoiles (2000 - que se lixem aqueles que dizem que o primeiro ano da década é 2001)
Radiohead - Kid A (2000)
Fausto - A Ópera Mágica do Cantor Maldito (2003)
Dream Theater - Octavarium (2002)
Amy Winehouse - Back to Black (2007)
Arcade Fire - Funeral (2004)
Kate Bush - Aerial (2005)
Jethro Tull - The Jethro Tull Christmas Album (2003)
Sufjan Stevens - Illinois (2005)
Muse - Origin of Symmetry (2003)
Muse - Black Holes and Revelations (2006)
Portishead - Third (2008)
Buena Vista Social Club - Live at Carneggie Hall (2008)
Peter Gabriel - Up (2002)

António Pinho Vargas - Solo (2008)

Crónica

Este post é uma crónica desta semana que se aproxima do fim. Foi uma semana da treta. Foi absolutamente detestável. Correu mal. Felizmente para mim, estes momentos na minha são muito reduzidos, ou quase nulos, por isso me sinto tão mal relativamente a estes últimos dias. Não sendo eu maior fã de Fernando Pessoa, creio compreender completamente a que se refere o tédio de viver. Senti-o. Vivi devagar, e isso para mim não serve. Alguns diziam querer viver depressa e morrer também depressa. Não quero morrer depressa, mas quero definitivamente viver depressa, depressa no sentido de viver em alta rotação. Nestes dias sinto que vivi em baixíssima rotação. Não tive criatividade para encher as horas de modo a aumentar essa rotação. Gosto de andar de autocarro, detestei andar de autocarro, adoro esta cidade, detestei-a e achei-a horrorosa. Nunca a cidade me pareceu mais tenebrosa, mas tenho a certeza que tal se deveu às minhas lentes. Oiço música, e quase paradoxalmente só me apetece ouvir música algo propensa para ambientes melancólicos e deprimentes. É nestas alturas que o "The Wall" soa melhor, é nestas alturas que mais me apetece ouvir Led Zeppelin e Black Sabbath. Fiquei à parte de tudo o que se passava, estive à parte das pessoas que por mim passavam, estive à parte de mim mesmo. FUCK THAT! Ao ouvir a música, ao fechar os olhos e diminuir o ritmo da respiração, acalmo-me, mas o motor passa a rodar mais rápido e a dita rotação aumenta. A loucura de viver vai sendo restaurada e depois da infelicidade da semana lá vou ficando mais feliz se assim se pode dizer. E então vivo mais depressa e melhor. Tinhas razão Kerouac.

Domingo, 16 de Outubro de 2011

Indignação

Ontem teve lugar um pouco por todo o planeta uma manifestação que foi baptizada como a manifestação dos indignados. Eu estive na que ocorreu na invicta e que mobilizou cerca de 20 mil pessoas. O único problema da manifestação do Porto foi que primou por um pouco de silêncio a mais. Lá se animou mais p'ra diante com algumas intervenções, bem como algumas tertúlias sobre algumas generalidade relacionadas com a situação actual. A da capital teve mais pontos de interesse pelo que foi descrito na comunicação social. Até não me importava de lá ter estado, isto apesar da minha geral aversão a algumas coisas dessa cidade. O que foi ocorrendo em todo o país é notícia nesses meios de comunicação, e não vou estar a recalcar o assunto. Vou antes falar de uma personagem da praça pública à qual tenho (sinto-me obrigado a tal) a tirar o chapéu (que por acaso não uso, mas esta é uma daquelas frases de catálogo). Essa personagem é o bastonário da Ordem dos Advogados. Marinho Pinto esteve presente no episódio de Coimbra desta manifestação global, ou antes dessa amostra, pois nesta cidade apenas se tratou de algumas centenas de pessoas, algo que me preocupa um pouco, numa cidade que tinha tudo para ser um importante pólo desta acção global, em virtude do seu carácter histórico como a terra da mais antiga universidade de Portugal, e este alheamento de grande parte da população desta saudosa cidade, nomeadamente das camadas mais jovens, pois creio, são elas a génese da sua população, não deixa de me parecer estranhamente paradoxal. O Bastonário dos Advogados a isso se referiu, dizendo que poderia haver facções da população que se sentissem representadas pelos profissionais do protesto. Concordo com ele neste ponto. Mas aquilo que mais quero destacar é a sua presença nesta manifestação, bem como uma quantidade de factos verdadeiros que referiu quando entrevistado. É de saudar que uma pessoa como o Marinho Pinto, que ocupa um cargo importante, se tenha resolvido associar a esta evento que marcou o dia 15 de Outubro, e que esperemos que volte a marcar outros dias. Entretanto, e enquanto esperamos pelo que vem aí, resta-me saudar esta posição do Marinho Pinto, que prima por muitas coisas, algumas delas já aparentes nos últimos anos nas posições que assumiu, mas que ontem, primou essencialmente pela inteligência, e sobretudo, pela coragem.

Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011

Morrison Hotel


Vou neste post revisitar o tema The Doors. De tempos a tempos, tenho esta necessidade de revisitação, fica sempre algo por dizer, e há sempre algo mais para acrescentar. Desta vez o que quero é sugerir o álbum 'Morrison Hotel', de 1970, o penúltimo antes da morte de Jim Morrison. Os Doors produziram diversos álbuns de qualidade excepcional, alguns deles disputam o título de obra-prima, e parece ser muito difícil haver decisão sobre qual é mesmo o melhor. Juntando este punhado de discos, ao ritmo a que foram produzidos (6 álbuns desde 1967 até 1971), à prematura morte do Rei Lagarto, tudo isto contribuiu para a criação de um mito. 'Morrison Hotel' foi o meu primeiro contacto com a banda, há já muitos anos (mais de 10, certamente), e foi via cassette. Uma daquelas de 90 minutos, 45 on each side, o que significava que lá cabiam dois álbuns. Num dos lados estava o 'Morrison Hotel', no outro lado estava o 'Combat Rock' dos Clash. A cassete foi ficando num estado cada vez mais deplorável, até que já não me arrisco a tocá-la mais, da última vez a fita quase se ensarilhou, o que ia fazendo um grande sarilho. Em Julho passado, no Porto, comprei o álbum em versão vinil. No dia seguinte, (que era 3 de Julho), ouvi Doors na rádio, lembraram-se dos 40 anos da morte do Lizard King. E nesse dia de manhã, ouvi o vinil. A experiência foi consideravelmente melhor do que ouvir em fita, já sabemos o que vale o vinil, e na verdade, o vinil vale mais que tudo em termos de qualidade sonora (melhor, só as bobines profissionais, ditas 'Master Tapes'). Estou a ouvir agora e tiro a mesma conclusão: o som purificado do vinil, mais a música que deitaram lá para dentro daquele pedaço de plástico, WOOOOOOOOWWWWWWWWW.

Antes do 'Morrison Hotel' veio 'The Soft Parade' em 1969, em que eles cooperaram com uma banda sinfónica. Este álbum foi um back to the roots, e essas raízes consistiam, em parte de música Blues. A primeira faixa chama-se Roadhouse Blues, onde o Jim relata '
When I woke up this morning I got myself a beer. O nome podia enganar, mas os primeiros cinco segundos da música esclarecem-nos. E os clássicos seguem-se, 'Waiting for the Sun', o rockeiro 'You make me Real', 'Queen of the Highway', ou 'Maggie McGill', ou o sanguinário 'Peace Frog', cujos versos começam quase todos por blood, e que remetem para a guerra que se travava no Vietname.

O que resulta é um álbum
mais rockeiro (o lado A do disco chama-se Hard Rock Cafe), e fácil de ouvir (barato de ouvir, digamos assim, tal como os quartos anunciados na capa) e LA (que é a cidade americana onde eu mais gostaria de ir), por uns instantes, é já aqui ao lado.
'Blood in my love, in the terrible Summer, bloody red sun of fantastic LA.'


Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Morte por omnisciência

No ano de 2666, num local que se chamou de Terra durante séculos, um indivíduo encontra outro, um ancião, de barbas, aspecto de gajo porreiro. Boa tarde, diga-me isto aqui é o quê, pergunta o primeiro. É o que você está a ver, responde-lhe o outro. O primeiro indivíduo não perde tempo com tal resposta fútil, e riposta, Você é deus? Sim sou. O que faz aqui? Nada, era suposto fazer algo só por ser deus? Sabe que há quem diga que sim, mas enfim, porque está aqui? Estou aqui porque morri, responde-lhe deus. E deus morre, inquiriu o transeunte. Porque não, responde-lhe deus. Morreu devido a quê? Morri com uma overdose. Overdose de quê? Overdose de omnipotência. Como assim? Exerci a minha omnipotência e matei-me, simplesmente. E agora? Agora continuo a ser deus. Como é isso possível? Ressuscitei-me de seguida, e não tive problemas com as burocracias. O transeunte continuou a pensar nisto: que omnipotência é esta?, tal pergunta viveu no seu espírito nos anos seguintes, que diga-se, foram muitos, nomeadamente no ano 2666, que, evidentemente, sucede ao ano 2666, que por sua vez sucede o ano 2666 onde principia esta história.

Post-Scriptum de 2666: O uso do número 2666 deve-se a Roberto Bolaño, escritor que passou pela Terra há infinitos anos.