quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

The Velvet Underground & Nico

New York City, 1967. Os Velvet Underground são uma banda instalada na "The Factory", o famosíssimo estúdio de Andy Warhol. Os Velvet sempre tiveram e procuraram um estilo musical experimental e provocador, um pouco à imagem daquilo que se fazia no mencionado estúdio, onde se incluem os agora célebres eventos "Exploding Plastic Inevitables". Lou Reed está ao leme. Lou Reed é uma daquelas figuras que toda a gente já ouviu ser mencionado nas letras do Chico Fininho, mesmo sem saber quem ele é. Em 1967, juntamente com a cantora Nico, dá-se o lançamento de "The Velvet Underground & Nico", o álbum da banana. Ninguém deu conta disso na altura. O tempo tornou este álbum e a banda como um dos mais importantes momentos na história do Rock. E a sua influência é notável, são inúmeros os artistas que se revelaram influenciados de algum modo por este álbum. Uma frase, por vezes (se calhar, erradamente) atribuída ao grande Brian Eno reza o seguinte: "The first Velvet Underground album only sold 10,000 copies, but everyone who bought it formed a band."

A capa é marcante, mas é apenas o início da viagem, antes de se retirar o vinil do seu interior. A banana que lá vem representada tem um autocolante, e na ponta da banana, em letras pequenas diz, "Peel Slowly and See". Por baixo, está a banana descascada. Pega-se na bolacha preta, bota-se a agulha a correr nos grooves. Ouve-se o som de celesta, e está a tocar a primeira faixa, "Sunday Morning".
O ecletismo dos Velvet é simplesmente arrasador. A seguir à primeira faixa, (uma música de um pop soft, muito bem feito, a celesta dá um toque ligeiramente psicadélico muito especial), vem "I'm Waiting for the Man" e parece que mudamos de álbum. Esta segunda faixa é um exercício de música típica de Rock de garagem, proto-punk. A terceira chama-se "Femme Fatale", outra música mais soft, e é nesta que somos atacados pela primeira vez pela voz da Nico, e o que podemos dizer é que a voz dela é deveras estranha. A seguir vem a minha preferida "Venus in Furs". A dureza e a aspereza do som regressa com a batida constante, a cacofonia do violino do John Cale, e a guitarra do Lou Reed com a afinação que ele inventou, onde todas as cordas tocam a mesma nota, mas em oitavas diferentes. As letra exemplificam o carácter provocador que já referi, e são inspiradas no livro com o mesmo nome do alemão Sacher-Masoch, que eu diria que é uma espécie de Marquês de Sade francês, e cujo apelido originou o vocábulo masoquismo. Voltamos ao Rock anunciador do Punk, em "Run Run Run", e o lado A termina com "All Tomorrow's Parties", de novo com a voz de Nico, uma música extraordinária, e segundo algumas fontes, o manager Andy Warhol dizia que esta era a melhor criação do grupo. Em todas estas faixas o vanguardismo sonoro e a experimentação estão à espreita. O lado B começa com Heroin, esta uma música tipicamente à Lou Reed, em que ele vai falando. Mais uma fabulosa música e que rivaliza com "Venus in Furs" como a minha preferida deste album. Seguem duas faixas um pouco mais convencionais, mais ao estilo do pop/Rock psicadélico que se praticava na época: "There She Goes Again" e "I'll Be your Mirror", esta última que também conta com Nico. O disco finaliza com "The Black Angel's Death Song" e com "European Song", que são possivelmente as duas músicas mais experimentais do disco.

Pela primeira vez que ouvi este álbum, há já muitos anos atrás, não gostei muito. Eu tenho o hábito, (e que infelizmente hoje já não se usa) de gostar essencialmente de álbuns, e como não gostei lá muito daquele, foi para a gaveta, apesar de se calhar até existirem algumas músicas (se bem me lembro aquelas mais pop) de que eu tenha gostado. Não gostei dele como um todo, e esta maneira de gostar assim no todo é o meu critério para gostar ou não de um artista, e daí que eu ache estranho quando alguém diz gostar muito de uma banda, mesmo quando se trata de uma banda que não me diga muito, e afinal eu ainda conheço muito mais música dessa banda do que o pretenso grande fã. Mas isso sou eu, e voltemos ao assunto. Na verdade, só gostei à segunda audição e passei a idolatrá-lo. O que causou isso foi um momento "Late Night", penso que no Verão, em 2006 ou em 2007, em que passou no VH1 o "Venus in Furs", numa versão ao vivo do Lou Reed (ou até dos Velvet Underground na reunião de 1993, já não tenho a certeza). E perguntei-me se aquela música que me deixou parado no tempo a meio da noite estaria naquele disco da banana? Estava mesmo, e no dia seguinte ouvi-o outra vez, e senti que aquilo era uma obra-prima. O álbum começou então a entranhar-me nas veias, e a dada altura já não havia nada a fazer.

Pode não o ser para outras pessoas, mas como o foi para mim, e eu adoro, recomendo. Mesmo que quem oiça não goste, acho que vale a pena o risco.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sandinista!

Esta breve prosa foi escrita na passada sexta-feira, dia 18, num banco do departamento de Matemática da Faculdade de Ciências da UP.

A Santíssima trindade da música Punk, no sentido daqueles que praticamente o 'fundaram' e que mais influência exerceram no estilo e não só, é constituída, a meu ver, por Sex Pistols, Ramones e The Clash.
Desta tríade, os meus preferidos são os Clash, seguidos dos Ramones, apesar de entre as três bandas ser os Clash serem provavelmente aquela que menos representa o estilo. O estilo e a roupagem Clash estendem-se para lá daquilo que comummente se encontra associado à música dita Punk. Os Sex Pistols tiveram o tempo de vida mais curto, mas muito possivelmente são a que mais caracteriza o estilo, são talvez a ultimate Punk band. E os Ramones têm, se a assim se pode dizer a paternidade do género, pois são geralmente tidos como a primeira banda punk, apesar de já existirem antes bandas que anunciavam a vinda do estilo, como os Stooges, com o Iggy Pop, ou os MC5 e o seu lendário álbum "Kick Out the Jams"
, e, claro, os New York Dolls. Esta ideia de ver os Sex Pistols como o mais puro punk deve-se creio, ao facto de serem a que teve o tal tempo de vida mais curto. Apenas lançaram um álbum e o tempo foi muito curto para que na música ocorressem mutações sónicas, algo que inevitavelmente teria de ocorrer caso a banda durasse mais tempo e a matriz original caminhasse para a saturação. A juntar a isso, também há o facto de os Clash os Clash e os Ramones serem musicalmente, claramente superiores aos Sex Pistols.
Sob este prisma, os Clash são aqueles que se calhar, deste grupo até menos representam o universo Punk, de modo análogo ao que, muitos anos despois, se verificaria com os Pearl Jam, que já referi em post anterior, que sendo oriundos do Grunge, se diversificaram musicalmente, e também não são os mais representativos deste estilo a partir do qual começaram, (aqui o título de mais representativo fica muito possivelmente com os Nirvana, que também duraram pouco tempo).

Voltando aos Clash, creio que esta minha visão das coisas se torna evidente quando se escuta a obra-prima da banda "London Calling", ou quando se ouve, e aqui vou-me focar mais neste disco, o álbum triplo da banda, "Sandinista!" de 1980. Logo pela primeira faixa, "The Magnificent Seven" ouvem-se sintetizadores, pianos eléctricos, um swing diferente, laivos de raggae e rap and other things. A mesma coisa se vai notando nas outras músicas, desde o hit single "The Call Up", com os efeitos sonoros a aparecerem, em contraste com o punk original, geralmente muito low-tec, ou pior do que isso (a qualidade dos músicos dos Sex Pistols, por exemplo é mais do que duvidável, os Clash eram indubitavelmente muito melhores músicos), ou os xilofones de "Washington Bullets". A instrumentação mudou, o estilo idem.
Por isso, "Sandinista!" é uma mescla de correntes, desde o ska, a coisas oriundas de outros pontos do globo. O título esse também o foram buscar ao outro lado do Atlântico, o nome de um grupo revolucionários da Nicarágua, os lendários Sandinistas.

Conclusão a tirar: os Clash saíram de Londres, quer no título dos álbuns, quer no conteúdo. E só para acabar caso ainda não tenham reparado, gosto muito de Clash, gosto muito do "London Calling", e claro, se me perguntarem se sou Sandinista, sou sim senhor, mesmo não tendo nascido em Manágua, este álbum tratou de me tornar num Sandinista. Oiçam também.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Achtung!

Não devia ter deixado passar. Há dois dias atrás, no sábado, dia 19, passaram vinte anos sobre o lançamento de um dos maiores álbuns de sempre, o 'Achtung Baby!' dos U2. Este álbum marca um antes e um depois na vida dos U2, e na música moderna. Não estou com paciência para estar a falar sobre o álbum em maior detalhe. Apenas sugiro que o ouçam, caso nunca o tenham feito, ou o oiçam outra vez, porque vinte anos depois, continua com a mesma ou maior frescura do que da primeira vez que o ouvi, e isto é o que costuma acontecer com aqueles álbuns que perduram no tempo e que são imortais.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Une Liste

Ora bem, vou fazer uma lista. Costumo dizer que gosto de listas, mas das feitas por mim. Num certo sentido é verdade, noutro é mentira, pois eu de facto, às vezes, também gosto de listas feitas pelos outros. Gosto do making da coisa e da síntese e de ver certas coisas associadas. As listas favorecem a comparação entre coisas, desde que não hajam assim muitas omissões. Só costumo detestar as listas da Rolling Stone, mas enfim, isso lá nos dá mais um tema de conversa para estar a malhar nas escolhas dos redactores da lendária e saudosa revista. Só me recuso terminantemente a listar o melhor de todos os tempos, seja esse melhor um filme, um álbum ou outra coisa qualquer. Mas gosto de listar aqueles que para mim são os melhores.

Neste post listo os álbuns que mais me satisfizeram nesta primeira década do novo século. Vão com certeza existir omissões que, caso sejam detectadas por mim, serão corrigidas em posts futuros.
Notas: As minhas listas são sempre corpos não ordenados, isto para formular a coisa matematicamente.

Belle Chase Hotel - La Toilette des Étoiles (2000 - que se lixem aqueles que dizem que o primeiro ano da década é 2001)
Radiohead - Kid A (2000)
Fausto - A Ópera Mágica do Cantor Maldito (2003)
Dream Theater - Octavarium (2002)
Amy Winehouse - Back to Black (2007)
Arcade Fire - Funeral (2004)
Kate Bush - Aerial (2005)
Jethro Tull - The Jethro Tull Christmas Album (2003)
Sufjan Stevens - Illinois (2005)
Muse - Origin of Symmetry (2003)
Muse - Black Holes and Revelations (2006)
Portishead - Third (2008)
Buena Vista Social Club - Live at Carneggie Hall (2008)
Peter Gabriel - Up (2002)

António Pinho Vargas - Solo (2008)

Crónica

Este post é uma crónica desta semana que se aproxima do fim. Foi uma semana da treta. Foi absolutamente detestável. Correu mal. Felizmente para mim, estes momentos na minha são muito reduzidos, ou quase nulos, por isso me sinto tão mal relativamente a estes últimos dias. Não sendo eu maior fã de Fernando Pessoa, creio compreender completamente a que se refere o tédio de viver. Senti-o. Vivi devagar, e isso para mim não serve. Alguns diziam querer viver depressa e morrer também depressa. Não quero morrer depressa, mas quero definitivamente viver depressa, depressa no sentido de viver em alta rotação. Nestes dias sinto que vivi em baixíssima rotação. Não tive criatividade para encher as horas de modo a aumentar essa rotação. Gosto de andar de autocarro, detestei andar de autocarro, adoro esta cidade, detestei-a e achei-a horrorosa. Nunca a cidade me pareceu mais tenebrosa, mas tenho a certeza que tal se deveu às minhas lentes. Oiço música, e quase paradoxalmente só me apetece ouvir música algo propensa para ambientes melancólicos e deprimentes. É nestas alturas que o "The Wall" soa melhor, é nestas alturas que mais me apetece ouvir Led Zeppelin e Black Sabbath. Fiquei à parte de tudo o que se passava, estive à parte das pessoas que por mim passavam, estive à parte de mim mesmo. FUCK THAT! Ao ouvir a música, ao fechar os olhos e diminuir o ritmo da respiração, acalmo-me, mas o motor passa a rodar mais rápido e a dita rotação aumenta. A loucura de viver vai sendo restaurada e depois da infelicidade da semana lá vou ficando mais feliz se assim se pode dizer. E então vivo mais depressa e melhor. Tinhas razão Kerouac.

domingo, 16 de outubro de 2011

Indignação

Ontem teve lugar um pouco por todo o planeta uma manifestação que foi baptizada como a manifestação dos indignados. Eu estive na que ocorreu na invicta e que mobilizou cerca de 20 mil pessoas. O único problema da manifestação do Porto foi que primou por um pouco de silêncio a mais. Lá se animou mais p'ra diante com algumas intervenções, bem como algumas tertúlias sobre algumas generalidade relacionadas com a situação actual. A da capital teve mais pontos de interesse pelo que foi descrito na comunicação social. Até não me importava de lá ter estado, isto apesar da minha geral aversão a algumas coisas dessa cidade. O que foi ocorrendo em todo o país é notícia nesses meios de comunicação, e não vou estar a recalcar o assunto. Vou antes falar de uma personagem da praça pública à qual tenho (sinto-me obrigado a tal) a tirar o chapéu (que por acaso não uso, mas esta é uma daquelas frases de catálogo). Essa personagem é o bastonário da Ordem dos Advogados. Marinho Pinto esteve presente no episódio de Coimbra desta manifestação global, ou antes dessa amostra, pois nesta cidade apenas se tratou de algumas centenas de pessoas, algo que me preocupa um pouco, numa cidade que tinha tudo para ser um importante pólo desta acção global, em virtude do seu carácter histórico como a terra da mais antiga universidade de Portugal, e este alheamento de grande parte da população desta saudosa cidade, nomeadamente das camadas mais jovens, pois creio, são elas a génese da sua população, não deixa de me parecer estranhamente paradoxal. O Bastonário dos Advogados a isso se referiu, dizendo que poderia haver facções da população que se sentissem representadas pelos profissionais do protesto. Concordo com ele neste ponto. Mas aquilo que mais quero destacar é a sua presença nesta manifestação, bem como uma quantidade de factos verdadeiros que referiu quando entrevistado. É de saudar que uma pessoa como o Marinho Pinto, que ocupa um cargo importante, se tenha resolvido associar a esta evento que marcou o dia 15 de Outubro, e que esperemos que volte a marcar outros dias. Entretanto, e enquanto esperamos pelo que vem aí, resta-me saudar esta posição do Marinho Pinto, que prima por muitas coisas, algumas delas já aparentes nos últimos anos nas posições que assumiu, mas que ontem, primou essencialmente pela inteligência, e sobretudo, pela coragem.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Morrison Hotel


Vou neste post revisitar o tema The Doors. De tempos a tempos, tenho esta necessidade de revisitação, fica sempre algo por dizer, e há sempre algo mais para acrescentar. Desta vez o que quero é sugerir o álbum 'Morrison Hotel', de 1970, o penúltimo antes da morte de Jim Morrison. Os Doors produziram diversos álbuns de qualidade excepcional, alguns deles disputam o título de obra-prima, e parece ser muito difícil haver decisão sobre qual é mesmo o melhor. Juntando este punhado de discos, ao ritmo a que foram produzidos (6 álbuns desde 1967 até 1971), à prematura morte do Rei Lagarto, tudo isto contribuiu para a criação de um mito. 'Morrison Hotel' foi o meu primeiro contacto com a banda, há já muitos anos (mais de 10, certamente), e foi via cassette. Uma daquelas de 90 minutos, 45 on each side, o que significava que lá cabiam dois álbuns. Num dos lados estava o 'Morrison Hotel', no outro lado estava o 'Combat Rock' dos Clash. A cassete foi ficando num estado cada vez mais deplorável, até que já não me arrisco a tocá-la mais, da última vez a fita quase se ensarilhou, o que ia fazendo um grande sarilho. Em Julho passado, no Porto, comprei o álbum em versão vinil. No dia seguinte, (que era 3 de Julho), ouvi Doors na rádio, lembraram-se dos 40 anos da morte do Lizard King. E nesse dia de manhã, ouvi o vinil. A experiência foi consideravelmente melhor do que ouvir em fita, já sabemos o que vale o vinil, e na verdade, o vinil vale mais que tudo em termos de qualidade sonora (melhor, só as bobines profissionais, ditas 'Master Tapes'). Estou a ouvir agora e tiro a mesma conclusão: o som purificado do vinil, mais a música que deitaram lá para dentro daquela rodela, WOOOOOOOOWWWWWWWWW.

Antes do 'Morrison Hotel' veio 'The Soft Parade' em 1969, em que eles cooperaram com uma banda sinfónica. Este álbum foi um back to the roots, e essas raízes consistiam, em parte de música Blues. A primeira faixa chama-se Roadhouse Blues, onde o Jim relata '
When I woke up this morning I got myself a beer. O nome podia enganar, mas os primeiros cinco segundos da música esclarecem-nos. E os clássicos seguem-se, 'Waiting for the Sun', o rockeiro 'You make me Real', 'Queen of the Highway', ou 'Maggie McGill', ou o sanguinário 'Peace Frog', cujos versos começam quase todos por blood, e que remetem para a guerra que se travava no Vietname.

O que resulta é um álbum
mais rockeiro (o lado A do disco chama-se Hard Rock Cafe), e fácil de ouvir (barato de ouvir, digamos assim, tal como os quartos anunciados na capa) e LA (que é a cidade americana onde eu mais gostaria de ir), por uns instantes, é já aqui ao lado.
'Blood in my love, in the terrible Summer, bloody red sun of fantastic LA.'

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Morte por omnisciência

No ano de 2666, num local que se chamou de Terra durante séculos, um indivíduo encontra outro, um ancião, de barbas, aspecto de gajo porreiro. Boa tarde, diga-me isto aqui é o quê, pergunta o primeiro. É o que você está a ver, responde-lhe o outro. O primeiro indivíduo não perde tempo com tal resposta fútil, e riposta, Você é deus? Sim sou. O que faz aqui? Nada, era suposto fazer algo só por ser deus? Sabe que há quem diga que sim, mas enfim, porque está aqui? Estou aqui porque morri, responde-lhe deus. E deus morre, inquiriu o transeunte. Porque não, responde-lhe deus. Morreu devido a quê? Morri com uma overdose. Overdose de quê? Overdose de omnipotência. Como assim? Exerci a minha omnipotência e matei-me, simplesmente. E agora? Agora continuo a ser deus. Como é isso possível? Ressuscitei-me de seguida, e não tive problemas com as burocracias. O transeunte continuou a pensar nisto: que omnipotência é esta?, tal pergunta viveu no seu espírito nos anos seguintes, que diga-se, foram muitos, nomeadamente no ano 2666, que, evidentemente, sucede ao ano 2666, que por sua vez sucede o ano 2666 onde principia esta história.

Post-Scriptum de 2666: O uso do número 2666 deve-se a Roberto Bolaño, escritor que passou pela Terra há infinitos anos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Que isto é Bossa Nova, que isto é muito natural....

Hoje ouvi dois discos de Bossa Nova. São eles:

Stan Getz & Charlie Byrd - Jazz Samba (1962, Verve)



Getz/Gilberto (1964, Verve)


Ambos são clássicos, mas creio que o segundo leva vantagem sobre o primeiro: as batidas da guitarra do João Gilberto, o piano do rei Tom Jobim, a angelical voz da Astrud Gilberto, e o Stan Getz com um som ainda mais polido (se é que tal é posível, pois em 'Jazz Samba' já estava soberbo) que no primeiro disco que mencionei.

Fica aqui o "Desafinado" de onde extraí o título deste post!


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ten


Devia ter escrito este post no passado dia 27 de Agosto, pois nesse dia cumpriram-se 20 anos sobre o lançamento de 'Ten', o primeiro disco dos Pearl Jam. Esta minha menção a este grande disco lançado em 1991 - e esse ano deu-nos muitos discos bons, ainda ontem vi na televisão que se estão a cumprir também 20 anos sobre a saída do grande 'Achtung Baby' dos U2 - ocorre pois este foi o lançamento de estreia de uma das primeiras bandas grunge, e que passados 20 anos continua a oferecer-nos grande música, progredindo para outros territórios exteriores à sua matriz musical de origem. De todas as bandas que foram considerados como sendo parte integrante do movimento musical oriundo de Seattle (e os Pearl Jam, primeiramente, foram-no), os Pearl Jam são sem dúvida a minha preferida. Podemos ouvir os álbuns mais recentes, mas este 'Ten', dada a sua importância histórica para um dos mais importantes movimentos musicais das últimas décadas, bem como a sua excepcional qualidade, constitui uma audição indispensável, 20 years later.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Bibliotecário de Babel



Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. Nascido no dia 24 de Agosto de 1899, ou seja, há 112 anos. Conhecido vulgarmente por Jorge Luis Borges. Pelo nome, poderia ser português. De facto, dizem os biógrafos que ele teve ascendência portuguesa, por parte de um bisavô oriundo da remota localidade transmontana Torre de Moncorvo, antes de emigrar para a Argentina. Borges nasceu em Buenos Aires, um nome muito bonito para se dar a uma cidade, que creio também ser lindíssima, mesmo nunca lá tendo estado. Adorava lá ir, e tenho que lá ir um dia, exijo-o a mim próprio. A cidade do tango, de Gardel que dizia lá ter nascido "aos dois anos e meio de idade", do futebol jogado como se de tango se tratasse como já me referi aquando de um post que dediquei a Maradona.

Borges é talvez o maior de todos os que não ganharam o prémio Nobel. Para muitos, o maior equívoco da longa história da Academia Sueca, juntamente com o James Joyce. Merecia-o. A juntar ao facto de nunca ter ganho, temos o de nunca ter escrito um romance. Ao longo do dia de hoje, o Google enfeitou-se em homenagem ao escritor
com a imagem acima. Um senhor, que pode ser o próprio Borges, ou posso ser eu, ou qualquer pessoa que esteja a ler estas linhas, perscruta um horizonte surrealista, labiríntico (os labirintos são lugares-comuns da sua obra), numa biblioteca potencialmente infinita como a sua idealizada Biblioteca de Babel, da qual eu o imagino como bibliotecário, daí o título que dei ao post. Borges começou a ter sinais de cegueira ainda por altura dos seus 40 anos de idade. Por volta de 1960 estava quase totalmente cego. Mas continuava a ver aqueles mundos fantásticos. Conforme era opinião de Saramago, Borges teria inventado a literatura visual. Conforme disse também o Nobel português no seu magnânimo 'Ensaio Sobre a Cegueira', há cegos que vêem. E agora acrescento eu, creio que Borges era um desses cegos que conseguiam ver.

Termino, para quem nunca leu, com uma sugestão, e agora vou ser conservador e não vou fugir da sugestão óbvia: 'Ficciones' uma colectânea de contos, inicialmente de 1944, uma torrente de histórias envolvendo algumas das estruturas preferidas do autor: sonhos, labirintos, enciclopédias, espelhos, escritores e obras fictícias, bibliotecas, religião, Deus, o tempo e o todo-poderoso infinito. Comprem, ou venham a minha casa e peçam-mo emprestado, arranjem o livro de qualquer maneira, mas por amor de Deus (lá estou a mandar o ateísmo pelo cano abaixo), leiam isto o mais cedo que puderem nas vossas vidas.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Mundo da Música Pop


Há alguns anos atrás, creio que em 2007, ao subir a íngreme rua da Fábrica, no Porto, olhando para a montra de um daqueles alfarrabistas típicos vi um livro intitulado 'O Mundo da Música Pop'. A capa era muito sugestiva, com uma imagem estilizada, muitíssimo psicadélica dos Beatles. Comprei-o por 1 €. Quem estiver curioso e for convencido pela minha análise, ainda se pode lá deslocar e comprar, é fazer o esforço de subir a rua e ir olhando para o lado direito a ver se a imagem acima aparece nalgum livro de alguma montra, que ainda há algum tempo me lembro de por lá ver alguns exemplares.

O livro procede a uma análise bastante bem conseguida dos novos adventos musicais pop/rock da década de 60 do século passado, desde os primórdios e origens no Rock and Roll da década anterior, até à música Beat, dos anos 60, passando pelo Folk, Skiffle e pelas novas explorações psicadélicas e oriundas do blues características do fim da mesma década, ainda destacando o rise and fall do movimento hippie. De notar que o autor, uma vez que o livro foi originalmente publicado em 1969, ainda não pôde aquando da sua feitura proceder a uma análise posterior, por exemplo, ao completo 'esvaziamento' do fenómeno hippie, que só ocorreu de facto, já em plenos anos 70. Por isso, as referências a algumas bandas do na altura novo Hard Rock/Heavy Metal, como Led Zeppelin, são efémeras e ainda não muito assertivas devido ao recente surgimento destes novos agrupamentos musicais. Grande destaque é dado aos Beatles, nomeadamente da sua formação e origens musicais, o Rock and Roll e o Skiffle. Uma boa análise do movimento psicadélico, de destacar os Pink Floyd, uma banda da qual o autor tem uma opinião que positiva, essencialmente devido ao underground e ao vanguardismo da banda, que considera ser uma das componentes da dita comuna psicadélica, do mesmo modo que os Beatles eram, a princípio, representantes da comuna Beat (de notar que se refere apenas aos Pink Floyd desde a fase Syd Barrett ao pós 'A Saucerful of Secrets'). Referências aos novos caminhos do Pop/Rock via experimentação, e entrevistas a alguns dos personagens musicais mais relevantes destes novos caminhos, como o beginner Eric Clapton e a fusão Blues/Rock, ou o grande, e que ainda estou a crer que lhe façam justiça um dia, Frank Zappa, artista pelo qual o autor nutre uma grande admiração e que desde o início do livro não passa despercebida, até que o autor, honestamente, fala, mais adiante, abertamente desta sua admiração relativamente ao sempre vanguardista Frank Zappa.


O autor tem uma visão bastante apaixonada pela temática, por vezes um pouco tendenciosa relativamente a algumas facções musicais, mas de tal modo incisiva que capta completamente o leitor. Um documento histórico importante, uma vez que se trata de opinião sobre aquilo relativamente ao qual muita gente tem opinião nos dias de hoje, mas que possui a propriedade ('vantagem') de ter sido escrito in media res relativamente às mutações musicais dos sixties, o que torna mais difícil o papel do autor (que não pôde, assim, maturar as ideias que ostentava baseando-se em factos e eventos muito posteriores que ajudem ao esclarecimento do passado, estrutura na qual se baseia qualquer análise crítica ao assunto que seja efectuada hoje), mas que ao mesmo tempo o favorece, uma vez que lhe permite ir directo ao assunto, não se perdendo em subterfúgios inúteis, e fazendo a tal 'paixão musical' que já referi vir ao de cima.

sábado, 20 de agosto de 2011

At the Gates of Dawn with Pink Floyd

O momento do dia (ou da noite) em que escrevo e publico este post é designado por 'Dawn'. Uso o vocábulo em inglês pois o acho assustadoramente bonito. Acho que soa maravilhosamente: The Dawn! Há uns minutos atrás estava ao piano e apercebi-me desta palavra e lembrei-me de um disco dos Pink Floyd, 'The Piper at The Gates of Dawn' de 1967, o álbum de estreia, ainda com o malogrado Syd Barrett. Para quem quiser levar com uma boa dose de LSD diluído em ondas sonoras, oiça este disco. Se o 'Sgt. Pepper's' era dito psicadélico, vamos ter de arranjar outra palavra para psicadélico para podermos descrever este álbum. Syd Barrett só mostrou o seu génio neste disco e em mais dois discos a solo de 1970, e que são a sua última obra musical. Por essa altura ele 'flipou' graças ao LSD e desapareceu da vida musical vivendo retirado até 2006, data da sua morte. Este disco é uma boa sugestão, mas é unânime dizer que se tratava de outros Pink Floyd, que neste disco eram praticamente Syd Barrett. Acho estranho que em já alguns anos deste blog ainda não tenha mencionado aquela que ainda julgo ser a minha banda, de agora e de sempre. Oiço agora os Pink Floyd com bastante mais parcimónia do que há alguns anos atrás, essencialmente porque tenho muitas outras coisas que adoro para ouvir. E ouvindo menos vezes, mexe mais comigo. Digamos que é um vício controlado que eu possuo relativamente a essa droga chamada Pink Floyd.

Então, dedilhava eu ao piano os acordes de uma faixa do magnânimo 'The Dark Side of The Moon' de 1973, esse sim dito o magnum opus da banda (não sei se será, pois julgo haver vários nestas condições). Essa faixa era a fabulosa 'The Great Gig in the Sky', que, basicamente, é uma ideia musical sobre a morte, verdadeiramente emocionante. Arrepia-me como se tivesse frio neste noite de canícula estival. Vou dizer uma heresia para alguns, já que a heresia é um direito: creio que a divagação Floydiana sobre a morte na faixa mencionada só pode ser equiparada àquela que Mozart logrou fazer no seu 'Requiem'. O 'Requiem' está envolto em religião, e a construção musical consiste, creio, numa busca através da tentativa artística de atingir a elegância e belezas absolutas e supremas. Já os Floyd não estão envoltos em religião (pelo menos pelos cânones clássicos) e em primeira instância não procuram a elegância (se calhar, nem em primeira instância nem em nenhuma, não procuram de todo a beleza, e o ideal de que a arte não é essencialmente a procura da beleza é um ideal com o qual concordo muito). Procuram a morte em sons, gritos, vibratos de órgão e acordes pesados de piano. Isto porque a música não é feita de notas, é feita de sons. Eles procuram e conseguem levantar-me os pêlos dos braços num ataque vocal da Clare Torry que é nada menos que visceral, e juntando o piano e o órgão, numa música que é nada menos que comovente. É uma música de outro planeta, mais nenhuma banda consegue fazer coisas destas perante um estádio de futebol cheio, numa dissertação colectiva sobre a morte. Mais nenhuma banda consegue fazê-lo em milhões de casas que têm a agulha a sacar som dos grooves.

Ligada à morte está, num certo sentido, a saudade. E os Pink Floyd também têm música para este último: 'Wish you Were Here'. Por estes últimos dias, passo horas a pensar nestes temas, a morte e a saudade, a pensar e a imaginar turbilhões e temporais sentimentais, filosofando. Esta noite, neste momento, não vou pensar, vou pedir emprestado, o Roger Waters já pensou e escreveu por mim, e os Floyd já projectaram sentimentos através de sons. Isso mesmo, vou ouvir um dos meus preferidos de sempre, 'Wish you Were Here', 1975. Oiçam também, já mudou muitas vidas, e pode mudar muitas mais.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Smells in the morning

Há uns tempos atrás falei no cheiro de bolachas. E agora vou falar de outro. A personagem do Robert Duvall, da qual não me recordo o nome, no grande filme 'Apocalypse Now', do Francis Ford Coppola, disse numa frase icónica que se tornou lendária, que 'adorava o cheira a napalm pela manhã'. No século XXI eu digo que adoro o cheiro a corte de despesa pela manhã. Por várias vezes se noticiou ontem na comunicação social que hoje iríamos sentir esse cheiro, numa perfumaria perto de si, num address capitaneado pelo Minister of Finance. Pela manhã, constato que se devem ter enganado na essência: o primeiro corte de despesa foi o aumento do IVA na electricidade e no gás. Enfim, algo normalíssimo ocorreu. Distinguir os cheiros de patchouli e de gás só está ao alcance de personagens tipo aquela do livro do Patrick Süskind.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carpintaria - The Doors

Nos últimos tempos, inclusive na excelente semana passada, em que não estive no Porto, a minha atenção musical concentrou-se numa banda em particular, a qual já eu apreciava há bastante tempo, mas relativamente à qual estava a precisar de dar um salto adiante, que consistia em explorar a obra mais a fundo. Num certo sentido precisava de atravessar a porta. Conforme disse a Margarida, ando muito voltado para a carpintaria, uma vez que a banda em questão são os 'The Doors'.

Por uma certa coincidência, quando estava numa loja de discos da Invicta, no dia 2 de Julho, apareceu-me nas mãos uma cópia do álbum 'Morrison Hotel' de 1970, um álbum que eu já conhecia de uma muito degradada cassette. Era um dia de descontos, e o disco saiu mais barato. Só o ouvi pela primeira vez no dia seguinte, com o 'Roadhouse Blues' a sair com toda a potência das colunas. Outra coincidência, nesse dia, 3 de Julho vi na televisão que se completaram 40 anos sobre a morte do Lizard King. Ando com toda a discografia da banda no mp3, ao mesmo tempo que decidi ler a biografia do Jim Morrison que por aqui tinha, 'No one here gets out Alive'.

Falando mais especificamente da música, o que me intriga desde há bastante tempo é a lucidez da música dos Doors. A lucidez e a sobriedade da música da banda, características que, diria eu, quase paradoxalmente, não são partilhadas pelos seus elementos, nomeadamente o vocalista, que segundo a mais comum e realista teoria, sucumbiu face ao álcool, sendo um dos foram aos 27, ao qual há dias atrás se juntou a Amy Winehouse. Os espaços da música estão bem definidos, quer as partes dos instrumentos usados, quer também os muito importantes espaços vazios para o silêncio, mais a poesia do Morrison, etc.. Conforme diz o Ray Manzarek, o extraordinário teclista da banda, e eu concordo, num certo sentido a música deles é Bauhaus, "It's clean, it's pure. There is a keyboard on one side, a guitar on the other, drums in the middle, a bass line underneath that and the singer up front ... you can hear the words", e agora acrescento eu, já que estou em desacordo com alguns críticos, a música é muito mais surrealista do que propriamente psicadélica. O Caos sonoro, dito psicadélico, fruto da experimentação e frequente, por exemplo, em alguns dos álbuns da fase de transição dos Pink Floyd depois do 'flipanço' do Syd Barrett e até fincarem os pés no Rock Progressivo, raramente ocorre na música dos Doors, o que creio que justifica o maior surrealismo da música, em oposição ao psicadelismo apontado por alguns. Talvez seja por isso que quando eles resolveram acrescentar uma orquestra para o álbum 'The Soft Parade' de 1969, o resultado não tenha sido totalmente satisfatório, apesar de algumas grandes músicas, pois a orquestra não cabe na organização da música deles e acaba por estorvar as estruturas existentes na música da banda e que culminavam no tal carácter sóbrio, 'clean, and pure', ao invés de fortalecer essas mesmas estruturas. O álbum seguinte a este é o citado 'Morrison Hotel', mais straight, músicas curtas, e que representou um 'back to roots', e que creio ser um dos melhores discos da banda.

Já me estou a esticar, e quase a ser multado por excesso de palavras. Voltarei aos Doors em ocasiões futuras. Para já, 'Touch Me' de 'The Soft Parade', uma canção cujo efeito sobre mim já descrevi e de onde já mencionei o verso 'I'm gonna love you, 'till the Heaven stops the Rain' num post anterior. Uma canção enérgica, mas com um dos refrões mais emocionantes que me recordo. Reparem como o Jim se esquece da letra aos 1:08 ao fazer malabarismo com o mike. Acontece aos melhores.



terça-feira, 19 de julho de 2011

Bolachas

Hoje fui à rua 'Between Walls' conforme gosto chamar à rua Entreparedes. Já não lá passava a pé há algum tempo. Durante os breves instantes que a demorei a atravessar, (a rua é bastante curta), revivi algumas memórias. A maior memória e que mais falta me fez, a mim que passava por lá todos os dias até ao ano de 2008, foi a falta do cheiro da célebre fábrica das bolachas. Esporadicamente quando por lá passava adorava reviver o sentir daquele cheiro abaunilhado. Entretanto a dita fábrica já não existe, e o máximo que posso fazer é imaginar a fome que aquele cheirinho a bolachas me dava pela manhã, e que se espalhava por toda a rua. Agora o mais parecido é o cheiro a Kebabs que lá existe, também ele agradável, apesar de menos penetrante e expansivo, 5 metros à frente já não se sente nada, e apesar de não transportar nem o peso da memória nem da recordação. Está na hora de acabar o texto, pois estou a precisar de bolachas.

2011/07/19 - 1:32

Há muito tempo que não escrevia. A chuva que me caiu hoje no cabelo obrigou-me a fazê-lo, bem como algo que ocorreu mais adiante no tempo, quando já não estava a levar com água. Circulava eu pela CIDADE, toda a gente sabe a qual me refiro, única. A Cidade onde a chuva é diferente. Quando já estava a ser chuva a mais, entrei num bus, devia de ser o terceiro ou quarto bus do dia. Este por sua vez, prossegue o seu caminho através da supracitada chuva. Melancolicamente, o autocarro pestanejava. Os autocarros têm um pestanejar diferente do nosso: pestanejam lateralmente, em vez de nós que pestanejamos na vertical, para o caso de nunca terem dado conta. Metodicamente, com uma cadência certa, e com uma certa melancolia, como disse, lá vai o bus movendo as suas pálpebras, que vulgarmente se designam por limpa pára-brisas. As pestanas do bus são aquelas gotas que por lá vão ficando. Quem lá está dentro pestaneja também. Sinto o cabelo (pouco, comparativamente ao usual, cortei-o numa dose bastante grande na semana transacta) húmido, a camisola colada devido à rain, tenho o Kerouac na mão, eu constato que também estou 'On the Road' mas não li uma única página. Nos meus ouvidos, o Lizard King está a cantar e eu acompanho-o 'I'm gonna love you, 'till the Heaven stops the Rain' e este verso faz-me olhar para cima, inspirar, cantar, abanar e abraçar a cabeça, fechar as pálpebras (as minhas, sob as do autocarro não tenho controlo), e chorar. Mais adiante, olho pela janela, que pode ser vista como uma parte do corpo do autocarro que não tem pálpebras a varrê-la para lhe limpar as ventas, e vejo-te breaking on (to the other side) of the street. A música prosseguiu e o Jim está de novo no refrão que acima disse. De novo, o verso faz-me chorar, pena que não exista sinónimo satisfatório para chorar pois eu precisava urgentemente de um para enfiar neste naco de texto, pois este chorar não tem nada que ver com o anterior, pois o que(m) eu vi pela janela pôs-me com um sorriso inapagável, em que percebi que o dia tinha valido a pena, depois de tantas horas de pasto. Nas fracções de segundo em que olhei pela janela devo ter pestanejado, tal como o autocarro, e aquele meu piscar de olhos naqueles instantes foi o momento mais brilhante do dia.

sexta-feira, 11 de março de 2011

abraço

Smile, Feel and Enjoy, and employ this verbs together. Refound, Redefine and refine the machine of your life. I desperately try to smile, feel and enjoy the beauty of all things in this fucking brilliant thing called life, and I think of all my luck in having all of those fucking awesome and wonderful people on it, usually called FRIENDS. That's a possible definition for FRIEND through the concept of friendship test, almost like a primality test, if you know what it is: a fucking awesome and wonderful person such that the only thing you think about is that you and your life can just feel lucky of knowing her or him. Definição fraca e redutora eu sei, todas as que metem o conceito de amizade acabam por assim o ser. Mas alguma modéstia à parte, creio estar próxima da essência. Sentimos a vida a enriquecer, fruto dessa sorte retrospectiva em contactar com tais exemplares de Homo Sapiens. Fantásticas criaturas isto a que se chama amigos. Com elas aproximamo-nos dos verbos que postulei no início deste texto, que cada vez mais atinge as proporções de um devaneio. Mais à frente no dicionário físico, mas colado ao conceito de amigo no dicionário sentimental, também começado por A, ABRAÇOS. Fascinante coisa que estes braços que deus no deu nos permitem, volta e meia preconizar. Os abraçados (let's call them that), estão num momento de pura igualdade e simetria, concentrados numa só entidade: os corações passam a funcionar em sintonia, o que no fundo quer dizer que são um só, os braços fundem-se numa só estrutura, as cabeças encostam-se e o calor (energia) de um é a energia do outro (e acrescento um 'pleonásmico' vice-versa). Não se distingue o sentimento dominante, talvez porque não haja sentimento dominante, e só o abraço é que consegue fazer isto, criar um vulcão de sentimentos sem privilegiar por si mesmo algum deles, e o resto é 'do it yourself', aparece e ocorre naturalmente numa magia inexplicável. Quem concorda comigo que se pronuncie, ou melhor, que seja proactivo e comece a abraçar. Por isso é que o abraço pode representar e ser tantas coisas diferentes como a demonstração de uma amizade plena, do carinho, da ternura, ou mais geralmente do amor em todos os seus sentidos, e muitos mais, e é por isso que este gesto é para mim o mais bonito, o melhor, o mais saboroso de todos os que se praticam por esta terra. Escrevo isto e tenho a certeza que este é o melhor gesto do mundo, vejo imagens de abraços a passaram na tela de 'photomaton' que todos temos cá dentro, trazendo sentimentos em turbilhão. Sinto alegria, assombro e tudo o mais, e com toda a sinceridade, correm-me lágrimas neste momento. Não faz mal, porque eu sei o que é: é o poder do abraço a fazer-me sentir pequeno.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Rivolição

Há já uns anos atrás (na verdade, foram anos a mais nesta situação), aquando do processo que culminou na atribuição do Rivoli ao Sr. La Féria, ouviu-se e vislumbrou-se pela cidade a palavra Rivolição. Ainda sobram alguns exemplares dessa palavra pintados algures em paredes do nosso Porto. Depois desse episódio de má memória, "dark times have passed". Acontece que Rivolição é o que está por agora a acontecer nessa mui nobre sala da cidade, depois da saído do citado senhor, nomeadamente no corrente mês, com uma série de concertos que hoje se encerra com o grande José Mário Branco e que nos dá aquilo que faltou durante os últimos anos: variedade de oferta, contrariando o vazio originado pela estratégia adoptada para o Rivoli. Seguir-se-á o já tradicional Fantasporto. E creio ser este o rumo que a Invicta precisa, se bem que ainda tenho as minhas reservas sobre qual será o desfecho. A cidade do Porto e a cultura necessitam-se reciprocamente. Esperemos que, tal como no Casablanca, seja o (re)início de uma bela e frutífera amizade entre as duas.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Hereafter

Exerço agora a minha veia de crítico de cinema. A vítima é o último do Clint Eastwood, "Hereafter". Digo eu para o filme, "come on baby....welcome to the Machine". O dito filme passou pela máquina sem dano, e tal deveu-se principalmente, ao facto de se tratar de um bom filme. É interessante constatar que o filme acaba por assentar em histórias de vidas bem reais, e são esses entes reais que pensam, especulam e se submergem na exploração das possibilidades do tema: a existência (ou não) de outras vidas. E tudo isto sem sermos postos com vendas nos olhos, que nos forcem a ir na direcção para a qual nos fomos obrigados a voltar, pois o filme, a meu ver, não nos sugere, em momento algum, que tomemos posição (céptica ou crédula) face ao tema. Ainda há tempo para um pequeno comentário, pouco relevante no contexto da história (ou melhor, das três histórias, encaixadas), mas apelando ao carácter social da questão e a abundância de 'charlatões e charlatonas', como diz o José Mário Branco.

At last, há que dizer que não sendo uma obra de proverbial genialidade, mais o vez o Clint, (que se calhar já consegue ser melhor realizador do que actor), não desilude e presenteou os espectadores com algo que a meu ver é muito bom, e extremamente satisfatório. Watch it!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Don't go

Sorry, pode ser esquisito este texto, mas não resisto a mandar uma achega. Acabei de ler algures por aqui que o governo português desaconselha visitas ao Egipto. Dei por mim a pensar: e onde é que se desaconselham as visitas a Cabo Verde, Guiné, e outras nações situadas naquilo que a wikipedia denomina de "endemic range" (não sei o equivalente português desta expressão), de doenças como a febre amarela, febre tifóide ou malária, depois de se ter efectivado uma dita actualização de taxas que consistiu, nomeadamente, no aumento da vacina da febre amarela de 0.15 € para 100 €? Já que matemática serve para alguma coisa, eu fiz a conta e ela mostrou-me que se assistiu a um aumento de 66567%! De facto pá, estamos de acordo pá, actualização de taxas é uma expressão justa para este fenómeno, pá. Se estiverem a pensar em ir a África sem tomar vacina, permitam-me propor que violem a muy sábia instrução do executivo e ide antes para o Egipto. Se fosse comigo, preferia apanhar com uma bomba a morrer com malária.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Amnésias

São já este fim de semana e deixo aqui um apelo:
1) Ide votar no domingo
2) Se têm problemas de memória, sugiro que comecem a tomar comprimidos (homeopáticos, LSD's de 1 polegada, ou outra coisa qualquer, é à vossa escolha), que combatam esse vosso problema, pois é necessário que tenham a memória na plenitude das suas forças para o acto que irão perfazer no domingo, caso sigam a minha instrução primeira.

Estas instruções destinam-se, em primeira instância, a tentar diminuir a abstenção, e, logo de seguida, a combater aquilo que foi provocado e todos os dias se vê, por muitos anos de amnésia, kind of collective hipnosis, nomeadamente muitos anos em que se falou em silêncio para não ter que justificar o injustificável, e em que quando o silêncio se interrompeu, foi para parir uma série de lérias, mentirosas por vezes, e nomeadamente 10 anos de um governo, em que, no tempo das vacas gordas se estoirou com dinheiro como poucas vezes se viu. Ups. Sorry, perdoem-me o lapso, também eu estou com falta de memória vejam bem, esqueci-me que alguns abutres de um banco que se fala por aí também lá estavam, pá. Que bela amizade pá, tipo "Os Três Mosqueteiros" que eles tinham pá, e veja-se no que deu, pá. Só de falar nisto pá, fico comovido. Just remember, feed your memory and vote.