terça-feira, 19 de julho de 2011

2011/07/19 - 1:32

Há muito tempo que não escrevia. A chuva que me caiu hoje no cabelo obrigou-me a fazê-lo, bem como algo que ocorreu mais adiante no tempo, quando já não estava a levar com água. Circulava eu pela CIDADE, toda a gente sabe a qual me refiro, única. A Cidade onde a chuva é diferente. Quando já estava a ser chuva a mais, entrei num bus, devia de ser o terceiro ou quarto bus do dia. Este por sua vez, prossegue o seu caminho através da supracitada chuva. Melancolicamente, o autocarro pestanejava. Os autocarros têm um pestanejar diferente do nosso: pestanejam lateralmente, em vez de nós que pestanejamos na vertical, para o caso de nunca terem dado conta. Metodicamente, com uma cadência certa, e com uma certa melancolia, como disse, lá vai o bus movendo as suas pálpebras, que vulgarmente se designam por limpa pára-brisas. As pestanas do bus são aquelas gotas que por lá vão ficando. Quem lá está dentro pestaneja também. Sinto o cabelo (pouco, comparativamente ao usual, cortei-o numa dose bastante grande na semana transacta) húmido, a camisola colada devido à rain, tenho o Kerouac na mão, eu constato que também estou 'On the Road' mas não li uma única página. Nos meus ouvidos, o Lizard King está a cantar e eu acompanho-o 'I'm gonna love you, 'till the Heaven stops the Rain' e este verso faz-me olhar para cima, inspirar, cantar, abanar e abraçar a cabeça, fechar as pálpebras (as minhas, sob as do autocarro não tenho controlo), e chorar. Mais adiante, olho pela janela, que pode ser vista como uma parte do corpo do autocarro que não tem pálpebras a varrê-la para lhe limpar as ventas, e vejo-te breaking on (to the other side) of the street. A música prosseguiu e o Jim está de novo no refrão que acima disse. De novo, o verso faz-me chorar, pena que não exista sinónimo satisfatório para chorar pois eu precisava urgentemente de um para enfiar neste naco de texto, pois este chorar não tem nada que ver com o anterior, pois o que(m) eu vi pela janela pôs-me com um sorriso inapagável, em que percebi que o dia tinha valido a pena, depois de tantas horas de pasto. Nas fracções de segundo em que olhei pela janela devo ter pestanejado, tal como o autocarro, e aquele meu piscar de olhos naqueles instantes foi o momento mais brilhante do dia.

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