quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ten


Devia ter escrito este post no passado dia 27 de Agosto, pois nesse dia cumpriram-se 20 anos sobre o lançamento de 'Ten', o primeiro disco dos Pearl Jam. Esta minha menção a este grande disco lançado em 1991 - e esse ano deu-nos muitos discos bons, ainda ontem vi na televisão que se estão a cumprir também 20 anos sobre a saída do grande 'Achtung Baby' dos U2 - ocorre pois este foi o lançamento de estreia de uma das primeiras bandas grunge, e que passados 20 anos continua a oferecer-nos grande música, progredindo para outros territórios exteriores à sua matriz musical de origem. De todas as bandas que foram considerados como sendo parte integrante do movimento musical oriundo de Seattle (e os Pearl Jam, primeiramente, foram-no), os Pearl Jam são sem dúvida a minha preferida. Podemos ouvir os álbuns mais recentes, mas este 'Ten', dada a sua importância histórica para um dos mais importantes movimentos musicais das últimas décadas, bem como a sua excepcional qualidade, constitui uma audição indispensável, 20 years later.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Bibliotecário de Babel



Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo. Nascido no dia 24 de Agosto de 1899, ou seja, há 112 anos. Conhecido vulgarmente por Jorge Luis Borges. Pelo nome, poderia ser português. De facto, dizem os biógrafos que ele teve ascendência portuguesa, por parte de um bisavô oriundo da remota localidade transmontana Torre de Moncorvo, antes de emigrar para a Argentina. Borges nasceu em Buenos Aires, um nome muito bonito para se dar a uma cidade, que creio também ser lindíssima, mesmo nunca lá tendo estado. Adorava lá ir, e tenho que lá ir um dia, exijo-o a mim próprio. A cidade do tango, de Gardel que dizia lá ter nascido "aos dois anos e meio de idade", do futebol jogado como se de tango se tratasse como já me referi aquando de um post que dediquei a Maradona.

Borges é talvez o maior de todos os que não ganharam o prémio Nobel. Para muitos, o maior equívoco da longa história da Academia Sueca, juntamente com o James Joyce. Merecia-o. A juntar ao facto de nunca ter ganho, temos o de nunca ter escrito um romance. Ao longo do dia de hoje, o Google enfeitou-se em homenagem ao escritor
com a imagem acima. Um senhor, que pode ser o próprio Borges, ou posso ser eu, ou qualquer pessoa que esteja a ler estas linhas, perscruta um horizonte surrealista, labiríntico (os labirintos são lugares-comuns da sua obra), numa biblioteca potencialmente infinita como a sua idealizada Biblioteca de Babel, da qual eu o imagino como bibliotecário, daí o título que dei ao post. Borges começou a ter sinais de cegueira ainda por altura dos seus 40 anos de idade. Por volta de 1960 estava quase totalmente cego. Mas continuava a ver aqueles mundos fantásticos. Conforme era opinião de Saramago, Borges teria inventado a literatura visual. Conforme disse também o Nobel português no seu magnânimo 'Ensaio Sobre a Cegueira', há cegos que vêem. E agora acrescento eu, creio que Borges era um desses cegos que conseguiam ver.

Termino, para quem nunca leu, com uma sugestão, e agora vou ser conservador e não vou fugir da sugestão óbvia: 'Ficciones' uma colectânea de contos, inicialmente de 1944, uma torrente de histórias envolvendo algumas das estruturas preferidas do autor: sonhos, labirintos, enciclopédias, espelhos, escritores e obras fictícias, bibliotecas, religião, Deus, o tempo e o todo-poderoso infinito. Comprem, ou venham a minha casa e peçam-mo emprestado, arranjem o livro de qualquer maneira, mas por amor de Deus (lá estou a mandar o ateísmo pelo cano abaixo), leiam isto o mais cedo que puderem nas vossas vidas.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Mundo da Música Pop


Há alguns anos atrás, creio que em 2007, ao subir a íngreme rua da Fábrica, no Porto, olhando para a montra de um daqueles alfarrabistas típicos vi um livro intitulado 'O Mundo da Música Pop'. A capa era muito sugestiva, com uma imagem estilizada, muitíssimo psicadélica dos Beatles. Comprei-o por 1 €. Quem estiver curioso e for convencido pela minha análise, ainda se pode lá deslocar e comprar, é fazer o esforço de subir a rua e ir olhando para o lado direito a ver se a imagem acima aparece nalgum livro de alguma montra, que ainda há algum tempo me lembro de por lá ver alguns exemplares.

O livro procede a uma análise bastante bem conseguida dos novos adventos musicais pop/rock da década de 60 do século passado, desde os primórdios e origens no Rock and Roll da década anterior, até à música Beat, dos anos 60, passando pelo Folk, Skiffle e pelas novas explorações psicadélicas e oriundas do blues características do fim da mesma década, ainda destacando o rise and fall do movimento hippie. De notar que o autor, uma vez que o livro foi originalmente publicado em 1969, ainda não pôde aquando da sua feitura proceder a uma análise posterior, por exemplo, ao completo 'esvaziamento' do fenómeno hippie, que só ocorreu de facto, já em plenos anos 70. Por isso, as referências a algumas bandas do na altura novo Hard Rock/Heavy Metal, como Led Zeppelin, são efémeras e ainda não muito assertivas devido ao recente surgimento destes novos agrupamentos musicais. Grande destaque é dado aos Beatles, nomeadamente da sua formação e origens musicais, o Rock and Roll e o Skiffle. Uma boa análise do movimento psicadélico, de destacar os Pink Floyd, uma banda da qual o autor tem uma opinião que positiva, essencialmente devido ao underground e ao vanguardismo da banda, que considera ser uma das componentes da dita comuna psicadélica, do mesmo modo que os Beatles eram, a princípio, representantes da comuna Beat (de notar que se refere apenas aos Pink Floyd desde a fase Syd Barrett ao pós 'A Saucerful of Secrets'). Referências aos novos caminhos do Pop/Rock via experimentação, e entrevistas a alguns dos personagens musicais mais relevantes destes novos caminhos, como o beginner Eric Clapton e a fusão Blues/Rock, ou o grande, e que ainda estou a crer que lhe façam justiça um dia, Frank Zappa, artista pelo qual o autor nutre uma grande admiração e que desde o início do livro não passa despercebida, até que o autor, honestamente, fala, mais adiante, abertamente desta sua admiração relativamente ao sempre vanguardista Frank Zappa.


O autor tem uma visão bastante apaixonada pela temática, por vezes um pouco tendenciosa relativamente a algumas facções musicais, mas de tal modo incisiva que capta completamente o leitor. Um documento histórico importante, uma vez que se trata de opinião sobre aquilo relativamente ao qual muita gente tem opinião nos dias de hoje, mas que possui a propriedade ('vantagem') de ter sido escrito in media res relativamente às mutações musicais dos sixties, o que torna mais difícil o papel do autor (que não pôde, assim, maturar as ideias que ostentava baseando-se em factos e eventos muito posteriores que ajudem ao esclarecimento do passado, estrutura na qual se baseia qualquer análise crítica ao assunto que seja efectuada hoje), mas que ao mesmo tempo o favorece, uma vez que lhe permite ir directo ao assunto, não se perdendo em subterfúgios inúteis, e fazendo a tal 'paixão musical' que já referi vir ao de cima.

sábado, 20 de agosto de 2011

At the Gates of Dawn with Pink Floyd

O momento do dia (ou da noite) em que escrevo e publico este post é designado por 'Dawn'. Uso o vocábulo em inglês pois o acho assustadoramente bonito. Acho que soa maravilhosamente: The Dawn! Há uns minutos atrás estava ao piano e apercebi-me desta palavra e lembrei-me de um disco dos Pink Floyd, 'The Piper at The Gates of Dawn' de 1967, o álbum de estreia, ainda com o malogrado Syd Barrett. Para quem quiser levar com uma boa dose de LSD diluído em ondas sonoras, oiça este disco. Se o 'Sgt. Pepper's' era dito psicadélico, vamos ter de arranjar outra palavra para psicadélico para podermos descrever este álbum. Syd Barrett só mostrou o seu génio neste disco e em mais dois discos a solo de 1970, e que são a sua última obra musical. Por essa altura ele 'flipou' graças ao LSD e desapareceu da vida musical vivendo retirado até 2006, data da sua morte. Este disco é uma boa sugestão, mas é unânime dizer que se tratava de outros Pink Floyd, que neste disco eram praticamente Syd Barrett. Acho estranho que em já alguns anos deste blog ainda não tenha mencionado aquela que ainda julgo ser a minha banda, de agora e de sempre. Oiço agora os Pink Floyd com bastante mais parcimónia do que há alguns anos atrás, essencialmente porque tenho muitas outras coisas que adoro para ouvir. E ouvindo menos vezes, mexe mais comigo. Digamos que é um vício controlado que eu possuo relativamente a essa droga chamada Pink Floyd.

Então, dedilhava eu ao piano os acordes de uma faixa do magnânimo 'The Dark Side of The Moon' de 1973, esse sim dito o magnum opus da banda (não sei se será, pois julgo haver vários nestas condições). Essa faixa era a fabulosa 'The Great Gig in the Sky', que, basicamente, é uma ideia musical sobre a morte, verdadeiramente emocionante. Arrepia-me como se tivesse frio neste noite de canícula estival. Vou dizer uma heresia para alguns, já que a heresia é um direito: creio que a divagação Floydiana sobre a morte na faixa mencionada só pode ser equiparada àquela que Mozart logrou fazer no seu 'Requiem'. O 'Requiem' está envolto em religião, e a construção musical consiste, creio, numa busca através da tentativa artística de atingir a elegância e belezas absolutas e supremas. Já os Floyd não estão envoltos em religião (pelo menos pelos cânones clássicos) e em primeira instância não procuram a elegância (se calhar, nem em primeira instância nem em nenhuma, não procuram de todo a beleza, e o ideal de que a arte não é essencialmente a procura da beleza é um ideal com o qual concordo muito). Procuram a morte em sons, gritos, vibratos de órgão e acordes pesados de piano. Isto porque a música não é feita de notas, é feita de sons. Eles procuram e conseguem levantar-me os pêlos dos braços num ataque vocal da Clare Torry que é nada menos que visceral, e juntando o piano e o órgão, numa música que é nada menos que comovente. É uma música de outro planeta, mais nenhuma banda consegue fazer coisas destas perante um estádio de futebol cheio, numa dissertação colectiva sobre a morte. Mais nenhuma banda consegue fazê-lo em milhões de casas que têm a agulha a sacar som dos grooves.

Ligada à morte está, num certo sentido, a saudade. E os Pink Floyd também têm música para este último: 'Wish you Were Here'. Por estes últimos dias, passo horas a pensar nestes temas, a morte e a saudade, a pensar e a imaginar turbilhões e temporais sentimentais, filosofando. Esta noite, neste momento, não vou pensar, vou pedir emprestado, o Roger Waters já pensou e escreveu por mim, e os Floyd já projectaram sentimentos através de sons. Isso mesmo, vou ouvir um dos meus preferidos de sempre, 'Wish you Were Here', 1975. Oiçam também, já mudou muitas vidas, e pode mudar muitas mais.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Smells in the morning

Há uns tempos atrás falei no cheiro de bolachas. E agora vou falar de outro. A personagem do Robert Duvall, da qual não me recordo o nome, no grande filme 'Apocalypse Now', do Francis Ford Coppola, disse numa frase icónica que se tornou lendária, que 'adorava o cheira a napalm pela manhã'. No século XXI eu digo que adoro o cheiro a corte de despesa pela manhã. Por várias vezes se noticiou ontem na comunicação social que hoje iríamos sentir esse cheiro, numa perfumaria perto de si, num address capitaneado pelo Minister of Finance. Pela manhã, constato que se devem ter enganado na essência: o primeiro corte de despesa foi o aumento do IVA na electricidade e no gás. Enfim, algo normalíssimo ocorreu. Distinguir os cheiros de patchouli e de gás só está ao alcance de personagens tipo aquela do livro do Patrick Süskind.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carpintaria - The Doors

Nos últimos tempos, inclusive na excelente semana passada, em que não estive no Porto, a minha atenção musical concentrou-se numa banda em particular, a qual já eu apreciava há bastante tempo, mas relativamente à qual estava a precisar de dar um salto adiante, que consistia em explorar a obra mais a fundo. Num certo sentido precisava de atravessar a porta. Conforme disse a Margarida, ando muito voltado para a carpintaria, uma vez que a banda em questão são os 'The Doors'.

Por uma certa coincidência, quando estava numa loja de discos da Invicta, no dia 2 de Julho, apareceu-me nas mãos uma cópia do álbum 'Morrison Hotel' de 1970, um álbum que eu já conhecia de uma muito degradada cassette. Era um dia de descontos, e o disco saiu mais barato. Só o ouvi pela primeira vez no dia seguinte, com o 'Roadhouse Blues' a sair com toda a potência das colunas. Outra coincidência, nesse dia, 3 de Julho vi na televisão que se completaram 40 anos sobre a morte do Lizard King. Ando com toda a discografia da banda no mp3, ao mesmo tempo que decidi ler a biografia do Jim Morrison que por aqui tinha, 'No one here gets out Alive'.

Falando mais especificamente da música, o que me intriga desde há bastante tempo é a lucidez da música dos Doors. A lucidez e a sobriedade da música da banda, características que, diria eu, quase paradoxalmente, não são partilhadas pelos seus elementos, nomeadamente o vocalista, que segundo a mais comum e realista teoria, sucumbiu face ao álcool, sendo um dos foram aos 27, ao qual há dias atrás se juntou a Amy Winehouse. Os espaços da música estão bem definidos, quer as partes dos instrumentos usados, quer também os muito importantes espaços vazios para o silêncio, mais a poesia do Morrison, etc.. Conforme diz o Ray Manzarek, o extraordinário teclista da banda, e eu concordo, num certo sentido a música deles é Bauhaus, "It's clean, it's pure. There is a keyboard on one side, a guitar on the other, drums in the middle, a bass line underneath that and the singer up front ... you can hear the words", e agora acrescento eu, já que estou em desacordo com alguns críticos, a música é muito mais surrealista do que propriamente psicadélica. O Caos sonoro, dito psicadélico, fruto da experimentação e frequente, por exemplo, em alguns dos álbuns da fase de transição dos Pink Floyd depois do 'flipanço' do Syd Barrett e até fincarem os pés no Rock Progressivo, raramente ocorre na música dos Doors, o que creio que justifica o maior surrealismo da música, em oposição ao psicadelismo apontado por alguns. Talvez seja por isso que quando eles resolveram acrescentar uma orquestra para o álbum 'The Soft Parade' de 1969, o resultado não tenha sido totalmente satisfatório, apesar de algumas grandes músicas, pois a orquestra não cabe na organização da música deles e acaba por estorvar as estruturas existentes na música da banda e que culminavam no tal carácter sóbrio, 'clean, and pure', ao invés de fortalecer essas mesmas estruturas. O álbum seguinte a este é o citado 'Morrison Hotel', mais straight, músicas curtas, e que representou um 'back to roots', e que creio ser um dos melhores discos da banda.

Já me estou a esticar, e quase a ser multado por excesso de palavras. Voltarei aos Doors em ocasiões futuras. Para já, 'Touch Me' de 'The Soft Parade', uma canção cujo efeito sobre mim já descrevi e de onde já mencionei o verso 'I'm gonna love you, 'till the Heaven stops the Rain' num post anterior. Uma canção enérgica, mas com um dos refrões mais emocionantes que me recordo. Reparem como o Jim se esquece da letra aos 1:08 ao fazer malabarismo com o mike. Acontece aos melhores.