sábado, 20 de agosto de 2011

At the Gates of Dawn with Pink Floyd

O momento do dia (ou da noite) em que escrevo e publico este post é designado por 'Dawn'. Uso o vocábulo em inglês pois o acho assustadoramente bonito. Acho que soa maravilhosamente: The Dawn! Há uns minutos atrás estava ao piano e apercebi-me desta palavra e lembrei-me de um disco dos Pink Floyd, 'The Piper at The Gates of Dawn' de 1967, o álbum de estreia, ainda com o malogrado Syd Barrett. Para quem quiser levar com uma boa dose de LSD diluído em ondas sonoras, oiça este disco. Se o 'Sgt. Pepper's' era dito psicadélico, vamos ter de arranjar outra palavra para psicadélico para podermos descrever este álbum. Syd Barrett só mostrou o seu génio neste disco e em mais dois discos a solo de 1970, e que são a sua última obra musical. Por essa altura ele 'flipou' graças ao LSD e desapareceu da vida musical vivendo retirado até 2006, data da sua morte. Este disco é uma boa sugestão, mas é unânime dizer que se tratava de outros Pink Floyd, que neste disco eram praticamente Syd Barrett. Acho estranho que em já alguns anos deste blog ainda não tenha mencionado aquela que ainda julgo ser a minha banda, de agora e de sempre. Oiço agora os Pink Floyd com bastante mais parcimónia do que há alguns anos atrás, essencialmente porque tenho muitas outras coisas que adoro para ouvir. E ouvindo menos vezes, mexe mais comigo. Digamos que é um vício controlado que eu possuo relativamente a essa droga chamada Pink Floyd.

Então, dedilhava eu ao piano os acordes de uma faixa do magnânimo 'The Dark Side of The Moon' de 1973, esse sim dito o magnum opus da banda (não sei se será, pois julgo haver vários nestas condições). Essa faixa era a fabulosa 'The Great Gig in the Sky', que, basicamente, é uma ideia musical sobre a morte, verdadeiramente emocionante. Arrepia-me como se tivesse frio neste noite de canícula estival. Vou dizer uma heresia para alguns, já que a heresia é um direito: creio que a divagação Floydiana sobre a morte na faixa mencionada só pode ser equiparada àquela que Mozart logrou fazer no seu 'Requiem'. O 'Requiem' está envolto em religião, e a construção musical consiste, creio, numa busca através da tentativa artística de atingir a elegância e belezas absolutas e supremas. Já os Floyd não estão envoltos em religião (pelo menos pelos cânones clássicos) e em primeira instância não procuram a elegância (se calhar, nem em primeira instância nem em nenhuma, não procuram de todo a beleza, e o ideal de que a arte não é essencialmente a procura da beleza é um ideal com o qual concordo muito). Procuram a morte em sons, gritos, vibratos de órgão e acordes pesados de piano. Isto porque a música não é feita de notas, é feita de sons. Eles procuram e conseguem levantar-me os pêlos dos braços num ataque vocal da Clare Torry que é nada menos que visceral, e juntando o piano e o órgão, numa música que é nada menos que comovente. É uma música de outro planeta, mais nenhuma banda consegue fazer coisas destas perante um estádio de futebol cheio, numa dissertação colectiva sobre a morte. Mais nenhuma banda consegue fazê-lo em milhões de casas que têm a agulha a sacar som dos grooves.

Ligada à morte está, num certo sentido, a saudade. E os Pink Floyd também têm música para este último: 'Wish you Were Here'. Por estes últimos dias, passo horas a pensar nestes temas, a morte e a saudade, a pensar e a imaginar turbilhões e temporais sentimentais, filosofando. Esta noite, neste momento, não vou pensar, vou pedir emprestado, o Roger Waters já pensou e escreveu por mim, e os Floyd já projectaram sentimentos através de sons. Isso mesmo, vou ouvir um dos meus preferidos de sempre, 'Wish you Were Here', 1975. Oiçam também, já mudou muitas vidas, e pode mudar muitas mais.

1 comentário:

Slinkman disse...

Mais um post muito bem escrito! E que faz muito sentido.