terça-feira, 2 de agosto de 2011

Carpintaria - The Doors

Nos últimos tempos, inclusive na excelente semana passada, em que não estive no Porto, a minha atenção musical concentrou-se numa banda em particular, a qual já eu apreciava há bastante tempo, mas relativamente à qual estava a precisar de dar um salto adiante, que consistia em explorar a obra mais a fundo. Num certo sentido precisava de atravessar a porta. Conforme disse a Margarida, ando muito voltado para a carpintaria, uma vez que a banda em questão são os 'The Doors'.

Por uma certa coincidência, quando estava numa loja de discos da Invicta, no dia 2 de Julho, apareceu-me nas mãos uma cópia do álbum 'Morrison Hotel' de 1970, um álbum que eu já conhecia de uma muito degradada cassette. Era um dia de descontos, e o disco saiu mais barato. Só o ouvi pela primeira vez no dia seguinte, com o 'Roadhouse Blues' a sair com toda a potência das colunas. Outra coincidência, nesse dia, 3 de Julho vi na televisão que se completaram 40 anos sobre a morte do Lizard King. Ando com toda a discografia da banda no mp3, ao mesmo tempo que decidi ler a biografia do Jim Morrison que por aqui tinha, 'No one here gets out Alive'.

Falando mais especificamente da música, o que me intriga desde há bastante tempo é a lucidez da música dos Doors. A lucidez e a sobriedade da música da banda, características que, diria eu, quase paradoxalmente, não são partilhadas pelos seus elementos, nomeadamente o vocalista, que segundo a mais comum e realista teoria, sucumbiu face ao álcool, sendo um dos foram aos 27, ao qual há dias atrás se juntou a Amy Winehouse. Os espaços da música estão bem definidos, quer as partes dos instrumentos usados, quer também os muito importantes espaços vazios para o silêncio, mais a poesia do Morrison, etc.. Conforme diz o Ray Manzarek, o extraordinário teclista da banda, e eu concordo, num certo sentido a música deles é Bauhaus, "It's clean, it's pure. There is a keyboard on one side, a guitar on the other, drums in the middle, a bass line underneath that and the singer up front ... you can hear the words", e agora acrescento eu, já que estou em desacordo com alguns críticos, a música é muito mais surrealista do que propriamente psicadélica. O Caos sonoro, dito psicadélico, fruto da experimentação e frequente, por exemplo, em alguns dos álbuns da fase de transição dos Pink Floyd depois do 'flipanço' do Syd Barrett e até fincarem os pés no Rock Progressivo, raramente ocorre na música dos Doors, o que creio que justifica o maior surrealismo da música, em oposição ao psicadelismo apontado por alguns. Talvez seja por isso que quando eles resolveram acrescentar uma orquestra para o álbum 'The Soft Parade' de 1969, o resultado não tenha sido totalmente satisfatório, apesar de algumas grandes músicas, pois a orquestra não cabe na organização da música deles e acaba por estorvar as estruturas existentes na música da banda e que culminavam no tal carácter sóbrio, 'clean, and pure', ao invés de fortalecer essas mesmas estruturas. O álbum seguinte a este é o citado 'Morrison Hotel', mais straight, músicas curtas, e que representou um 'back to roots', e que creio ser um dos melhores discos da banda.

Já me estou a esticar, e quase a ser multado por excesso de palavras. Voltarei aos Doors em ocasiões futuras. Para já, 'Touch Me' de 'The Soft Parade', uma canção cujo efeito sobre mim já descrevi e de onde já mencionei o verso 'I'm gonna love you, 'till the Heaven stops the Rain' num post anterior. Uma canção enérgica, mas com um dos refrões mais emocionantes que me recordo. Reparem como o Jim se esquece da letra aos 1:08 ao fazer malabarismo com o mike. Acontece aos melhores.



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