quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

The Velvet Underground & Nico

New York City, 1967. Os Velvet Underground são uma banda instalada na "The Factory", o famosíssimo estúdio de Andy Warhol. Os Velvet sempre tiveram e procuraram um estilo musical experimental e provocador, um pouco à imagem daquilo que se fazia no mencionado estúdio, onde se incluem os agora célebres eventos "Exploding Plastic Inevitables". Lou Reed está ao leme. Lou Reed é uma daquelas figuras que toda a gente já ouviu ser mencionado nas letras do Chico Fininho, mesmo sem saber quem ele é. Em 1967, juntamente com a cantora Nico, dá-se o lançamento de "The Velvet Underground & Nico", o álbum da banana. Ninguém deu conta disso na altura. O tempo tornou este álbum e a banda como um dos mais importantes momentos na história do Rock. E a sua influência é notável, são inúmeros os artistas que se revelaram influenciados de algum modo por este álbum. Uma frase, por vezes (se calhar, erradamente) atribuída ao grande Brian Eno reza o seguinte: "The first Velvet Underground album only sold 10,000 copies, but everyone who bought it formed a band."

A capa é marcante, mas é apenas o início da viagem, antes de se retirar o vinil do seu interior. A banana que lá vem representada tem um autocolante, e na ponta da banana, em letras pequenas diz, "Peel Slowly and See". Por baixo, está a banana descascada. Pega-se na bolacha preta, bota-se a agulha a correr nos grooves. Ouve-se o som de celesta, e está a tocar a primeira faixa, "Sunday Morning".
O ecletismo dos Velvet é simplesmente arrasador. A seguir à primeira faixa, (uma música de um pop soft, muito bem feito, a celesta dá um toque ligeiramente psicadélico muito especial), vem "I'm Waiting for the Man" e parece que mudamos de álbum. Esta segunda faixa é um exercício de música típica de Rock de garagem, proto-punk. A terceira chama-se "Femme Fatale", outra música mais soft, e é nesta que somos atacados pela primeira vez pela voz da Nico, e o que podemos dizer é que a voz dela é deveras estranha. A seguir vem a minha preferida "Venus in Furs". A dureza e a aspereza do som regressa com a batida constante, a cacofonia do violino do John Cale, e a guitarra do Lou Reed com a afinação que ele inventou, onde todas as cordas tocam a mesma nota, mas em oitavas diferentes. As letra exemplificam o carácter provocador que já referi, e são inspiradas no livro com o mesmo nome do alemão Sacher-Masoch, que eu diria que é uma espécie de Marquês de Sade francês, e cujo apelido originou o vocábulo masoquismo. Voltamos ao Rock anunciador do Punk, em "Run Run Run", e o lado A termina com "All Tomorrow's Parties", de novo com a voz de Nico, uma música extraordinária, e segundo algumas fontes, o manager Andy Warhol dizia que esta era a melhor criação do grupo. Em todas estas faixas o vanguardismo sonoro e a experimentação estão à espreita. O lado B começa com Heroin, esta uma música tipicamente à Lou Reed, em que ele vai falando. Mais uma fabulosa música e que rivaliza com "Venus in Furs" como a minha preferida deste album. Seguem duas faixas um pouco mais convencionais, mais ao estilo do pop/Rock psicadélico que se praticava na época: "There She Goes Again" e "I'll Be your Mirror", esta última que também conta com Nico. O disco finaliza com "The Black Angel's Death Song" e com "European Song", que são possivelmente as duas músicas mais experimentais do disco.

Pela primeira vez que ouvi este álbum, há já muitos anos atrás, não gostei muito. Eu tenho o hábito, (e que infelizmente hoje já não se usa) de gostar essencialmente de álbuns, e como não gostei lá muito daquele, foi para a gaveta, apesar de se calhar até existirem algumas músicas (se bem me lembro aquelas mais pop) de que eu tenha gostado. Não gostei dele como um todo, e esta maneira de gostar assim no todo é o meu critério para gostar ou não de um artista, e daí que eu ache estranho quando alguém diz gostar muito de uma banda, mesmo quando se trata de uma banda que não me diga muito, e afinal eu ainda conheço muito mais música dessa banda do que o pretenso grande fã. Mas isso sou eu, e voltemos ao assunto. Na verdade, só gostei à segunda audição e passei a idolatrá-lo. O que causou isso foi um momento "Late Night", penso que no Verão, em 2006 ou em 2007, em que passou no VH1 o "Venus in Furs", numa versão ao vivo do Lou Reed (ou até dos Velvet Underground na reunião de 1993, já não tenho a certeza). E perguntei-me se aquela música que me deixou parado no tempo a meio da noite estaria naquele disco da banana? Estava mesmo, e no dia seguinte ouvi-o outra vez, e senti que aquilo era uma obra-prima. O álbum começou então a entranhar-me nas veias, e a dada altura já não havia nada a fazer.

Pode não o ser para outras pessoas, mas como o foi para mim, e eu adoro, recomendo. Mesmo que quem oiça não goste, acho que vale a pena o risco.