domingo, 18 de novembro de 2012

A Calçada à Portuguesa

Esta semana assistiu-se a uma incremento relativo da violência num dia de greve geral. Por causa disto ninguém se lembra que esta greve geral foi de facto maior do que as que a precederam nos últimos tempos. Isto devido ao poder aterrador que a violência tem de se impor a tudo o resto. Comecemos por aquilo que se viu: um bando de atrasados mentais (possivelmente mariconços) que se puseram a atirar uns calhaus contra a polícia (inda por cima, uma calçada à portuguesa bem bonita, à antiga). Pelo que vejo nas imagens, no início do ocorrido seriam muito possivelmente apenas meia dúzia. Creio que uma actuação policial logo nesse momento, poderia ter, para além de ser muito mais fácil devido à quantidade reduzida de animais envolvidos, cortado o mal pela raiz. Exigia-se uma atitude muito mais rápida. Não se fez nada nesse momento, e o fenómeno avolumou-se, e dado isto, a polícia teve de fazer alguma coisa (e decidiu, e muito bem, fazê-lo), e dado este avolumar, a reacção policial teria de ser, obrigatoriamente, mais forte. Não se pode ter ilusões sobre isto. A ideia de irem lá abaixo buscar um ou dois indivíduos é completamente inexequível, basta visualizar as imagens para compreender isso. Apesar disto, quanto à investida que se viu, julgo que talvez tenha sido um pouco excessiva. E havia alternativas possíveis. Por isso, eu defendo uma teoria que até ao momento ainda não ouvi mais ninguém sugerir. Ora bem filhos, pelo que se costuma ver lá fora, muitas vezes estas coisas resolvem-se à carga de água. Então pá, não chamavam um carro de bombeiros e mandavam uma mija para cima daquele pessoal todo? Não havia bombeiros na capital, pá? Eu ia ali ao quartel da Constituição e dizia-lhes logo: Em direcção à capital rapazes, é sempre em frente, para baixo, façam de conta que é uma espécie de 25 de Abril,  mas desta vez não parem nos semáforos vermelhos (semáforos vermelhos claro, pois ia dizer-lhes para irem pela EN 1, que a auto-estrada está cara). Ou então não chamavam o sôr Gaspar, um dos maiores cobrador de impostos da história, para cobrar um imposto inspirado naqueles jogos de feira de tiro ao meco: 10 tiros, dois euros, Iva não incluído. Ninguém quereria continuar nesta condições, pá. Falando agora mais ou menos a sério, julgo mesmo que a água poderia resultar, a menos de algumas eventuais constipações.  Se não resultasse, o que acho pouco provável, mandava-se gás pimenta aos indivíduos. Não dá o gás, avança-se com porrada. Eles resolveram entrar por esta terceira alternativa nesta espécie de hierarquia de possíveis resoluções que enumerei. É por isso que digo que talvez tenha havido algum excesso, isto porque creio que concordamos que os ditos manifestantes pacíficos (os inocentes envolvidos do episódio) prefeririam levar um banho, ou sentir uma malagueta a picar-lhes nos olhos do que levar uma bastonada. Afinal de contas, (primeira suposição deste meu teorema), devem tomar banho em casa, e utilizar malaguetas na cozinha, já levar bastonadas, não deve ser muito costumeiro (segunda suposição: havia poucos sado-masoquistas).

A violência aumentou em Portugal com este acto, e aumentou em termos de mediatismo ao ponto de eclipsar parcialmente uma greve enorme (cá está mais uma das vertentes do poder de imposição da violência)  e sabemos que a tendência é continuar a aumentar. Se qulquer dia isto correr mal, a partir desse mesmo momento, as coisas mudarão, não sei como, nem para onde, mas mudarão. E muito.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Deserto de aborrecimento

Este post é só para dar nota de que acabei de ler o livro 2666. Deixarei a análise (se a conseguir fazer) para depois. Comecei no fim de Julho, terminei hoje, 30 de Agosto, por volta das duas da manhã. Seguiram-se 5 segundos (ou 10) que talvez não tenham existido, 10 minutos de estupefacção, e meia hora de baixa actividade cerebral e aborrecimento. Depois de 1030 páginas dá pena que o livro tenha acabado. Se bem que aqui chega-se ao fim sem se acabar, pois já sabemos que tudo continua e que tudo é provisório ao mesmo tempo, ainda para mais quando se fala da vida humana.

Conforme a frase de Baudelaire que serve de epígrafe ao livro, estou convencido dos oásis de horror no meio dos desertos de aborrecimento.

sábado, 28 de julho de 2012

Calcorrear

O que os nossos olhos vêem pode ter um poderoso healing effect. Já deixei transparecer isto em alguns posts. O Porto pode fornecer-nos essa visão que tem esse tal healing effect. Quando algo não está bem, calcorreia-se a cidade, de preferência com alguém e vai-se olhando. 'Viajar é olhar' dizia Sophia de Mello Breyner ao Miguel Sousa Tavares, conforme este conta num dado livro de viagens cujo título já não recordo, e que não estou com pachorra de ir procurar para encontrar o título. Também se pode ir sozinho. Aliás nunca se está sozinho numa cidade como o Porto, a cidade vai-nos acompanhando, não como acontece noutras cidades, em que é o rebuliço humano que nos acompanha. Mas o que é certo é que a cidade nos acompanha, eu é que não tenho arte poética suficiente para explicar, ou propor, ou sugerir como é que julgo que esse acompanhamento se dá. Indo sozinho é um pouquito estranho e talvez deprimente para quem já está deprimido, mas pronto, deprime-se um bocado. Uma vez ouvi um indivíduo dizer que uma dada janela já empenou o que tinha a empenar, aqui é mais ou menos parecido, já deprimiu o que tinha a deprimir. Mas geralmente, e isto acontece sempre (pelo menos costuma assim ser), ao calcorrear a cidade (gosto da palavra calcorrear), a dada altura, numa dada rua, a luz entra num ângulo certo, nas proporções certas (luz de um dia estival, como foi hoje, ou aquela cor pardacenta bem típica, ambos são bonitos), e faz uma imagem bonita, e então o problema está resolvido.

Este naco de texto está ridiculamente simplista, e porventura cheio de equívocos. Às vezes assim tem de ser...

Não consigo arranjar título para esta treta

Ao que parece, a Europa-América faliu. Resta-me primeiramente lamentar esta falência de uma editora que tão importante foi na divulgação de literatura de qualidade em Portugal. Os despojos da guerra podem ser vistos, por exemplo, na loja da rua 31 de Janeiro, na Invicta. A montra está tapada. Mas mesmo ao lado da porta, há um bocado destapado onde estão colocados alguns títulos, um deles Mein Kampf, do cabrão do Hitler. Estão lá outros livros, por detrás de um vidro completamente conspurcado, mas que se apresenta imaculadamente inteiro. Os livros estão completamente à mostra e ainda ninguém os roubou. Só há uma explicação, a falta de cultura dos indivíduos que se dedicam ao roubo. Isto porque os livros são uma coisa que, estou a crer, vale a pena roubar, deus com toda a certeza perdoaria o infeliz. Esta falta de cultura dos delinquentes, já certa vez ouvi (ou li) o Carlos Tê a falar dela, nos anos 70 os flipados ainda sabiam quem era o Lou Reed. Hoje não sabem quem é a Lady Gágá, e não estou a querer denegrir a señorita. Só assim é possível que, meses depois da falência ainda lá estejam os ditos livros. Eu até estou a precisar de um livro do Hitler para por a secar ao sol na corda da roupa para fazer peso....

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os Filhos da Vergonha

Há aproximadamente meia hora atrás assistiu-se a um episódio lamentável no debate do Estado da Nação na Assembleia da República, o qual me revoltou profundamente e me impeliu a escrever esta breve prosa.

Após um discurso na tribuna por parte do líder do Partido Socialista, seguiu-se uma intervenção na mesma tribuna de Luís Montenegro do PSD. Não vou comentar o conteúdo político e ideológico levado a cabo pelo PS. Vou sim falar de outro nível, de algo mais fundamental, mais basilar, e, a ver bem as coisas, mais grave. Para isso, refiro-me exclusivamente ao conteúdo factual do discurso de António José Seguro. Esse conteúdo factual consiste dos indesmentíveis números do desemprego na população deste país, em particular do desemprego jovem, e dos conhecidos casos de pessoas que neste país têm muitas dificuldades em aceder ao Serviço Nacional de Saúde (por vezes adiando o recurso a esse serviço, adiando a melhoria na sua saúde, aguardando por capacidade nas suas finanças para o fazer) em virtude da implementação de taxas moderadoras assassinas. Estes são apenas exemplos de alguns desses factos que efectivamente ocorrem na sociedade portuguesa. Repito: FACTOS. Depois do discurso que mencionou estes factos para tentar estabelecer uma posição política, eis que aparece o senhor Luís Montenegro do PSD, e na sua primeira frase proclama que se assistira a 24 minutos de banalidades por parte do dirigente socialista, frase a que se seguiu um aplauso de uma vasta camada das bancadas da maioria (talvez pudesse dizer de toda a bancada, mas por uma questão de rigor admito apenas aquilo que vi). Ora bem, ao dizer isto, o senhor do PSD disse que todos estes dramas sociais são banalidades. Esta classificação é mais uma vez um insulto às pessoas que por essas situações passam. Mas mais do que isso, pois qualquer dicionário nos indica que insignificância e vulgaridade são sinónimos de banalidade, e agora sim, atribuir o título de banalidade a estes factos dramáticos é já uma afirmação política. Na verdade, é mais: é uma afirmação de carácter e de moralidade (neste caso, ambos absolutamente deploráveis) e uma afirmação que demonstra um humanismo quase inexistente. Uma das pessoas que vi a aplaudirem esta frase que abriu o discurso foi o senhor Carlos Abreu Amorim, pessoa a que eu reconhecia méritos, antes de assumir funções de deputado, e à qual, evidentemente, continuo a reconhecer. Mas estamos a falar de algo para além desses méritos, da inteligência, ou da sua capacidade intelectual, como já disse, estamos a falar da moralidade, do carácter e dos princípios do indivíduo. Assim, a figura que depois se assume como a única possível mãe de toda esta gente que aplaudiu é a VERGONHA, daí que estes sejam Os Filhos da Vergonha. Alguns, acredito, poderão, no fim do dia, olhando em retrospectiva, sentir essa mesma Vergonha a percorrer-lhes o espírito, aquela que foi a Mãe deles naquele momento de aplauso. Outros, e agora que o cartão de cidadão já não contém a filiação do indivíduo, nunca quererão nem sentirão essa maternidade, mas tal não interessa porque tal como na realidade, o filho não pode escolher a mãe, e esta será sempre sua até ao fim da sua vida.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

MOOG


Ora bem, precisei de escrever este post depois de ter aberto o Google hoje, e ter deparado com um Minimoog diante dos meus olhos, e tal deve-se ao aniversário do grande Robert Moog (atenção à pronúncia do apelido), o inventor desta coisa que é um dos candidatos a melhor sintetizador de sempre.

O Minimoog apareceu pela primeira vez em 1970, para ser uma alternativa mais barata, mais portátil, e, no geral, mais acessível aos monstruosos sintetizadores modulares que na altura existiam, e nos concertos ao vivo esses mesmos módulos formavam pilhas de vários metros de altura. O Minimoog permanece como um dos sintetizadores electrónicos mais importantes de sempre. Monofónico, altamente versátil, com osciladores poderosos, juntamente com filtros e outros efeitos sonoros que quase que fazem milagres. O Minimoog mudou para sempre a história da  música. Em http://en.wikipedia.org/wiki/Mini_Moog é possível encontrar uma descrição mais detalhada e completa deste instrumento, bem como uma lista de alguns álbuns onde se pode ouvir este fabuloso sintetizador em acção. Posso eu mesmo fazer algumas sugestões: a música do Rick Wakeman dos Yes, ou claro, a do Jean-Michel Jarre, se bem que aqui, para quem não conhece se torna difícil distinguir entre o Minimoog e outros sintetizadores clássicos. E claro, já que somos portugueses, não posso deixar de sugerir o álbum "10000 Anos Depois entre Vénus e Marte", a obra-prima de José Cid, onde o Minimoog desempenha um papel importante juntamente com outros teclados também eles lendários, entre eles, um ao qual talvez um dia dedique um post, o Mellotron.
 
Entretanto podemos experimentar brincar um bocadinho com o Minimoog no Google. É difícil. Quase que é preciso tirar um curso para saber mexer num Minimoog. Mas com algum jeito e alguma "intenção musical" conseguem-se criar coisas muito interessantes. Thanks Mr. Robert Moog!

sábado, 12 de maio de 2012

Wish You Were Here

O álbum dos Pink Floyd que mais tenho ouvido ultimamente é o Wish You Were Here de 1975. A minha aventura no mundo dos Pink Floyd começou há já bastantes anos, e começou com o Dark Side of The Moon. O que de início me fascinou, como creio que já escrevi num certo post de há uns meses atrás, foram os efeitos sonoros. Pouco tempo depois, comecei a ouvir Beatles e comecei a ter capacidade para distinguir, e fazer uma espécie de educação musical sobre as diferenças entre as duas bandas. Isto foi no início deste milénio (ou talvez ainda no anterior, não sei) e durante alguns anos o meu conhecimento do universo Floyd começava e acabava ali. Até que me lembro de que, na rádio (que nunca passava Pink Floyd), ouvir uma sucessão de quatro notas, após as quais surge a música propriamente dita, e percebi logo que aquilo tinha que ser Pink Floyd. Vasculhei em casa e encontrei uma cassette onde estava escrito "Pink Floyd - Wish you Were Here".

Wish you Were Here é o primeiro álbum da banda após o Dark Side of The Moon, o que equivale a dizer que é o primeiro álbum depois da conquista do mundo que a banda empreendeu, quer pela crítica, quer pelas vendas (onde os Pink Floyd finalmente conseguiram vender na América), e o álbum iniciava a sua permanência de 14 anos consecutivos nos tops. Depois surgiu o problema de como se ia dar seguimento ao enorme sucesso de Dark Side. Segundo a banda e a crítica, Wish You Were Here foi um disco que teve um parto difícil. Começam a aparecer as primeiras tensões, que não seriam ainda determinantes, mas que marcam o início da mudança no seio da banda. A concentração e determinação anteriores tinham diminuído, como o Nick Mason disse certa vez. O Dark Side tinha sido o primeiro álbum onde todas as letras estiveram a cargo do Roger Waters, e como álbum conceptual, toda a ideia tinha partido dele, apesar de o álbum, em termos musicais, não ter nascido exclusivamente dele, tal como sucederia com Wish you Were Here. O David Gilmour diz que o Roger Waters era a "pushing force" dos Floyd. Depois do Dark Side era evidente que Waters seria o letrista dos Floyd, e por conseguinte, os próximos capítulos da história seriam altamente dependentes dele, pois não creio que a banda estivesse disposta a abandonar o modelo de álbuns conceptuais e voltar aos terrenos de indefinição que caracterizaram a banda desde 1968 até 1971, quando lançaram Meddle em que já se podia antever algumas das características que iriam protagonizar o Dark Side. E pouco depois do sucesso, já outro conceito para outro álbum surgia na mente dele. E esse conceito reside fundamentalmente no tema da ausência, incluindo a própria ausência da banda, cuja coesão diminuíra após o sucesso. Apesar deste distanciamento entre os membros, tanto o Gilmour como o Richard Wright dizem que este é o álbum preferido deles.

Mas há uma outra ausência que se viria a revelar ainda mais importante neste disco, a do Crazy Diamond, Syd Barrett, que segundo uma famosa história, terá aparecido no estúdio de Abbey Road julgando que ainda fazia parte da banda, um acontecimento que se diz ter devastado completamente os outros membros da banda, principalmente Roger Waters, que inicialmente não o reconheceram. É sobre ele o épico "Shine on You Crazy Diamond", que totaliza mais de 26 minutos de duração, e que abre e fecha o disco. Pelo meio duas músicas onde as letras de Waters atacam a indústria da música, "Welcome to the Machine" e "Have a Cigar", esta última cantada por Roy Harper. E mais a clássica faixa-título "Wish you Were Here".

A ausência de Syd é tema recorrente nos Pink Floyd e em grande parte das letras do Roger Waters, juntamente com a ausência do pai, falecido na WWII. "Nobody knows where you are. How near or how far" canta-se em "Shine on". 30 Anos depois, a formação clássica dos Pink Floyd juntou-se no Live 8 em 2005. Uma das músicas interpretadas foi "Wish you Were Here". E o Roger Waters voltou a referir o Crazy Diamond: "We're doing this for everyone who's not here, but particularly of course, for Syd". Syd morreu em 2006. Rick Wright morreu em 2008. Roger Waters e David Gilmour tocam juntos e abraçam-se em 2011, (em 2005, basta ver os vídeos do Live 8 para se perceber toda a tensão que ainda existia entre ambos, limitando-se a tocar, sem se olharem um ao outro). Se Syd fosse vivo, talvez não fosse capaz de compreender que o diferendo entre eles tinha acabado. Se compreendesse, com certeza que gostaria. "Wish you Were Here" dizem eles, e de cada vez que o dizem pensam no Crazy Diamond. 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Sticky Fingers

Os Rolling Stones são inequivocamente uma das melhores bandas Rock que alguma vez pisaram esta Terra. Tidos como dinossauros desde há muitos anos, o que é certo é que mesmo depois desse estatuto de lendas vivas lhes ter sido atribuído continuaram a produzir boa música. E não podemos esquecer que aquando do fim da década de 70 e início da de 80, já havia vozes que lhes colocavam esse rótulo, na época em que o Punk ascendia na Europa. O mesmo Punk que tinha sido muitíssimo influenciado pelos Stones. De resto, os Stones influenciaram tudo e todos desde aquela altura, desde os Prog Rockers aos antagonistas destes, os Punk, passando pelos inevitavelmente primeiros Hard Rockers e metaleiros. Acontece que na sua mistura de influências do Rock N' Roll, do Blues, da música negra e de muitas outras inspirações, os Stones são simplesmente inconfundíveis, e em alguns momentos, imbatíveis, basta olhar para a sucessão de álbuns que nos foram dando, principalmente na década de 70, para depois conseguirem literalmente sacar um álbum diferente como o "Some Girls" no fim desta década, no auge do período Punk, e onde já muito boa gente olhava para eles como relíquias do passado.

Pessoalmente incomoda-me ver algumas pseudo-histórias das supostas rivalidades entre os Beatles e os Rolling Stones, na verdade por detrás desses trechos devem de existir alguns interesses obscuros. De resto isto é frequente na história da música pop, tal ocorreu também na década de 80 entre o Michael Jackson e o Prince, que, ao que se diz, eram pessoas que se davam bem. Qualquer indivíduo bem informado pode constatar que o Mick Jagger aparece no vídeo de "All You Need is Love" dos Fab Four, e a dupla Lennon/McCartney canta no disco "Their Satanic Majesties Request" dos Stones. Ainda sobre a comparação das duas bandas, eu costumo dizer algo que sei ser completamente redutor, mas que creio ser o que melhor aproxima a verdade, e que não pretende ser facciosa (não consigo de facto escolher a minha preferida de entre estas duas bandas): Os Beatles são essencialmente uma banda que podemos classificar como Pop, enquanto que aos Stones temos associar a palavra Rock.

Os últimos álbuns com o Brian Jones marcam o início  de uma época brilhante dos Stones, que consistiria de uma série de álbuns obrigatórios e excepcionais que entram pelos anos 70 adentro. Neste contexto irá aparecer o que é possivelmente a magnum opus "Exile On Main Street" de 1972, mas que deixarei para posts futuros. Agora vou falar do predecessor deste, o clássico "Sticky Fingers" de 1971, que tenho ouvido com alguma frequência nos tempos recentes. O disco começa com aquela que é talvez a minha música preferida deles, "Brown Sugar", seguem-se faixas de Rock impregnado de Blues, passando pela gigante "Can't You Hear me Knocking" ou o clássico "Bitch", ou o brilhante "Wild Horses".

Tratando-se de um disco lendário e brilhante, como um verdadeiro clássico do Rock requer que seja ouvido de vez em quando. A visão que alguém possa ter do Rock e da sua história nunca poderá ser completa sem ouvir este disco. E já agora o melhor é tentar no gira-discos e com um bom amplificador (a válvulas, evidentemente, depois de as deixar aquecer convenientemente)!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Los Detectives Salvajes


O último grande tour de force que empreendi no que diz respeito a literatura foi no final do Verão passado, lá para os fins de Agosto até Setembro. Essa epopeia literária foi 'Os Detectives Selvagens' de Roberto Bolaño. O livro tem 500 e tal páginas, mas esse número é totalmente arbitrário num certo sentido, podiam ser 700 ou 1000, tal é o desdobramento que ocorre nas páginas que constituem a narrativa, narrativa essa que é quase, poderia dizer usando matemática, de geometria fractal.

Carreguei o livro por diversos locais da invicta, onde foi lido debaixo do sol
(e também debaixo de chuva) geralmente um pouco enublado  de um Verão atípico, como Serralves, os Jardins do Palácio de Cristal, a Ribeira, o Terreiro da Sé, a praça de Liège e muitos mais. Ora bem, o livro em si é imensamente curioso, não falando na sua qualidade literária como uma obra-prima e um dos melhores romances modernos, um dos melhores escritores da sua geração, e que irá com certeza, e por muitos anos, continuar a intrigar leitores e críticos, quem sabe para sempre, como ocorre com as obras imortais. A este livro junta-se um outro colosso ainda maior, '2666', que tenciono ler brevemente.

O livro fala de quase tudo, sem falar de nada em particular, se é que assim se pode dizer. Existe contudo, na minha perspectiva, um tema unificador (quase omnipresente através de uma personagem, que não sendo a principal, é central no romance, e à volta da qual todo ele gravita, que é a poetisa mexicana
Cesárea Tinajero), e esse tema é a literatura. Um livro sobre si próprio então. Na verdade, a literatura, juntamente com as temáticas da morte e da violência, é um tema recorrente na maior parte da obra do escritor Chileno. Grande parte das personagens são indivíduos que se relacionam, de algum modo, com a literatura, desde aspirantes a poetas, a editores ou académicos na área da literatura, numa história (ou várias) cravejadas de referência múltiplas, à Borges ou à Cortázar, de muitos escritores, estabelecendo tal como Borges um jogo onde já não sabemos o que é real ou fictício (lembro-me agora do escritor Ménard, que nas Ficções do escritor Argentino, aparece como o homem que plagiou o Quixote de Cervantes). E é então com estas personagens que tudo se passa, e este tudo é mesmo tudo aquilo que se poderia imaginar que poderia ocorrer numa história. O livro tem três partes. A primeira e última partes decorrem em 1975-1976, e estão na forma de diário de um jovem, acabado de entrar na universidade, que se junta a um movimento literário, o 'Realismo Visceral', onde Bolaño satiriza o movimento que ele próprio fundara com os amigos quando tinha aproximadamente a mesma idade, e ao qual pertencem os detectives selvagens Arturo Belano e Ulises Lima, onde o primeiro é um alter-ego do autor que aparece também em outras obras, e que levam uma vida a vagabundear e a 'malhar' em Octavio Paz, roubando, dormindo e tomando banho com os livros, e a beber o saudoso Mezcal 'Los Suicidas'. O meu método de leitura do livro percorrendo a invicta assemelhou-se em grande parte aos real-visceralistas. Na parte central, e que constitui o grosso do romance, assistimos a um desfilar de cerca de 50 narradores, com depoimentos que varrem o período 1976-1996, por todo o planeta, desde o México, e o seu místico deserto de Sonora, onde existe a tal cidade de Santa Teresa (versão fictícia de Ciudad Juárez, a cidade mais perigosa do mundo, e que constitui a ideia de Bolaño daquilo que pode ser o Inferno, tal como Veneza é a sua ideia de paraíso, http://2666.blogs.sapo.pt/19196.html), Managua na Nicaragua dos Sandinistas na década de 80, Barcelona, Viena, Paris, ou em Israel.

Quanto ao modus operandi de Bolaño em termos de escrita, aquilo que podemos dizer é que apresenta um dissimulado e refinado humor mordaz, feroz e cáustico em muitas ocasiões, numa escrita delirante, vertiginosa, uma verdadeira torrente, onde a narrativa 'come' os espaços e o tempo ditos normais. Uma escrita única, como nunca me lembro de ver outra, radicalmente diferente da habitual da América latina, muitíssimo distante do realismo mágico das árvores caminhantes e das virgens flutuadoras que caracteriza Gabriel García Márquez ou os seus conterrâneos
Isabel Allende e Sepúlveda e o já citado mexicano Paz. Bolaño deve as suas inflências dentro da esfera latino-americana essencialmente a Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Nicanor Parra, (um dos expoentes da família Parra) que eu costumo dizer que são mais do tipo surrealismo mágico, apesar de terem sido fulcrais para o estabelecimento do estilo dos autores mencionados atrás. Bolaño herda esse surrealismo, e funde-o com a realidade da loucura e da demência, da vingança, da violência e dos crimes, e essencialmente, o Mal e a Arte, e a relação entre estes. Como já alguém disse antes de mim: ' Ninguém escreverá como ele'.

Um excerto do texto: http://bibliotecariodebabel.com/geral/e-um-dia-a-obra-morre/
Uma entrevista: http://bibliotecariodebabel.com/blogosfera/as-respostas-de-bolano/

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Ai se eu te pego

Este bocado de texto foi escrito à mão nas primeiras horas da madrugada de hoje.

Ora bem, por paciência a mais, as coisas não mudam. Tenha paciência, tenha paciência, e fica tudo na mesma. E a minha paciência tem-se reduzido bastante. Cada vez que olho para a televisão, ou algo do género, o meu stock de paciência baixa.

Enquanto isso, na Europa produz-se merda a ritmos nunca vistos. E a merda de melhor qualidade da Europa, pelo menos ultimamente, tem sempre um cérebro alemão por detrás, desde a señorita Merkel, ao novo presidente do parlamento europeu, o Sr. Martin Schulz. Este mesmo senhor que protagonizou uma memorável cena há uns anos atrás nesse mesmo parlamento europeu com il Cavaliere, Silvio Berlusconi, agora ensinou-me uma palavra em alemão, o vocábulo que significa declínio. Mais, ensinou-me que esta palavra e Portugal combinam muito bem. Mas o grande homem alemão, digamos assim, ainda é uma mulher, e que também se esqueceu de onde termina a fronteira alemã. Entretanto, por cá, o senhor Ervas, hey sorry brother, ando a pensar em erva pá, o senhor Relvas, fez aquilo a que os media costumam chamar de desvalorização das declarações de outrém. Eu percebo pá, que tens de manter o teu status quo pá, que tens de continuar a ter a comunicação social toda na pata pá, como se viu no curiosamente abafado caso do Pedro Rosa Mendes, cujo espaço na rádio pública foi suspenso, eu compreendo pá, mas vai-te a eles Relvas, ou pelo menos a ela pá, à Merkel. Já sabes que nós portugueses adoramos a senhora. Se não fores tu, alguém irá pá. Talvez até eu pá. Adoro-te Merkel. Ai se eu te pego, Angela.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

In Nomine Dei

Ora bem. Dia 1 de Janeiro do corrente ano, se bem me lembro era capaz de ser aí 2 ou 3 horas da noite, ou seja ainda estávamos no início da party. Três mininos sentam-se na soleira de granito (para ser mais preciso não foi bem na soleira da porta, foi um bocadinho ao lado) de uma igreja existente na cidade invicta, no Carmo. Só aqui, vejam bem, já é difícil escolher, porque acontece que o senhor possui muito terrenos naquela zona da cidade, e algumas vozes perspicazes perguntarão: Qual igreja, pá, há duas, pá, paredes meias uma com a outra, pá? Era a segunda para quem sobe, a Igreja dos Carmelitas. Até que apareceu uma personagem, vinda do interior do templo. Uma senhora que, qual fantasma daqueles que aparecem nos livros, emanou à porta da dita casa do senhor. Depois de uma série de vocábulos que nós não entendemos lá muito bem, eis que percebemos inequivocamente que ela nos estava a mandar bazar, e para irmos conversar, beber, enfim, vaguear para outro lado. Deve ter visto as crenças religiosas estampadas nas nossas caras, ou então confundiu-nos com o Che ou com a Rosa Luxemburgo. Tive quase para ir ao outro lado da rua comprar um Favaios para oferecer à dita senhora. Quem diz Favaios, diz une cigarrette, erva, ou o que ela quisesse, porque eu senti pá, senti deus, porque ela estava a mandar-nos embora In Nomine Dei. Ouvi a voz dele "Come on brothers, go away" é que deus fala em inglês por causa da globalização. Estava a brincar evidentemente, não senti nada, mas achei o episódio estranho. Então não se fazem grandes festas dentro daqueles estabelecimentos pá, em que as pessoas socializam perante um presidente que faz um discurso daqueles très longue à Fidel Castro, cantam cantigas juntas, e às vezes até dão beijinhos umas às outras, e nós que ali estávamos civilizadamente a socializar, não podemos pá? Foi um episódio giro e engraçado daqueles que me fazem pensar que se deus existir, deve de se mijar a rir com aquilo que alguns indivíduos dizem e fazem cá em baixo em seu nome.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Suck it and See

Neste post refiro-me aos Arctic Monkeys. Ora bem, convém afirmar logo a minha posição à partida: eu não era fã dos Arctic Monkeys. Primeiramente, não conhecia exaustivamente a discografia, e então também não podia dizer que não gostava da banda, pois estaria a dizer algo sobre música que não conhecia, pelo menos exaustivamente. Conhecia algumas músicas, e simpatizava com algumas, mas o certo é que elas também não me tinham chamado à atenção, atenção essa que se iria materializar na audição mais profunda, isto é, ouvir os discos.

Ora bem, isto mudou um pouquito em Junho último, aquando do lançamento de 'Suck it and See'. O facto de estar a sair um álbum novo fez-me pensar que era uma boa oportunidade para ouvir música deles mais a sério, e tentar entrar mesmo na música e compreender do que a banda é feita, foi vamos lá pá, vamos lá ouvir a música deles em condições. Ora bem, antes do disco tocar, olhei para a capa. Hoje em dia ninguém liga a estas merdas, e eu até sou o primeiro a dizer "Não julgues um álbum pela sua capa". Mas o que é certo é que existe uma correlação notável entre bons discos e boas capas. O prisma dos PInk Floyd, os Queen mergulhados na sombra, o monstro dos King Crimson, as paisagens inconfundíveis do Roger Dean, a banana de Andy Warhol, ou a caveira do Oxygène do Jean-Michel Jarre, que tenho dependurada na parede do meu quarto. Experimentem, mas regra geral é difícil dissociar a qualidade da música da qualidade e da permanência na mente da imagem que lhe serve de rosto visual. Ora bem let's roll the tape back. Ao ver a capa do Suck it and See, gostei do que vi. Não tem muito de especial, é certo, não é extraordinária, mas sem sombra de dúvida não é uma das piores de sempre, conforme uma revista qualquer lançou numa daquelas estúpidas listas que volta e meia essas revistas precisam de fazer para que os fãs do número 1 comprem a revista. Devem ter tudo combinado, de tal modo que a cada não sei quantos meses, actualizam a lista e vão trocando os primeiros, assim revezam-se todos na liderança. Roll back again. Instantaneamente lembrou-me a capa daquele que é vulgarmente designado por "The White Album" dos Fab Four. E eu gostei da simplicidade, e tem impacto.

Passamos para o interior do rosto do álbum e vem a música. Acontece que eu adorei o que lá está dentro. 40 minutos de músicas curtas. Ouvi Rock muito bom, com um som vintage, absolutamente clássico, nalgumas harmonias vocais, nos timbres das guitarras. As músicas curtas vão passando com um som que eu gostei bastante. Esse carácter clássico e vintage da música faz-me pensar: se esta treta estiver bem gravada, que maravilha que deveria de ser ouvir isto em LP.

Este álbum foi das coisas que mais gostei de ouvir no ano que recentemente terminou, e assim continua a sê-lo. Já posso dizer que gosto dos Arctic Monkeys, ou então se tal for exagerado, que gosto deste álbum. Passarei aos outros em breve, mas já o sei, cá dentro, que será difícil superar este. Pelo que sei, os críticos não gostaram muito, não deve haver muitas pessoas neste mundo que julguem este álbum como muito bom, e ao que parece ao gostar muito deste álbum, eu estarei a ser um atípico fã dos Arctic Monkeys. Não faz mal, que já estou habituado a ser atípico em questões musicais. Podia ter escolhido outra música, mas optei por esta, "Black Treacle".



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Espaço XYZ

Musical Box is proud to present a brand new 3-dimensional vector space/blog (further extensions in dimension are being considered), created by a a fellow mathematician:

Espaço XYZ

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