quarta-feira, 11 de abril de 2012

Los Detectives Salvajes


O último grande tour de force que empreendi no que diz respeito a literatura foi no final do Verão passado, lá para os fins de Agosto até Setembro. Essa epopeia literária foi 'Os Detectives Selvagens' de Roberto Bolaño. O livro tem 500 e tal páginas, mas esse número é totalmente arbitrário num certo sentido, podiam ser 700 ou 1000, tal é o desdobramento que ocorre nas páginas que constituem a narrativa, narrativa essa que é quase, poderia dizer usando matemática, de geometria fractal.

Carreguei o livro por diversos locais da invicta, onde foi lido debaixo do sol
(e também debaixo de chuva) geralmente um pouco enublado  de um Verão atípico, como Serralves, os Jardins do Palácio de Cristal, a Ribeira, o Terreiro da Sé, a praça de Liège e muitos mais. Ora bem, o livro em si é imensamente curioso, não falando na sua qualidade literária como uma obra-prima e um dos melhores romances modernos, um dos melhores escritores da sua geração, e que irá com certeza, e por muitos anos, continuar a intrigar leitores e críticos, quem sabe para sempre, como ocorre com as obras imortais. A este livro junta-se um outro colosso ainda maior, '2666', que tenciono ler brevemente.

O livro fala de quase tudo, sem falar de nada em particular, se é que assim se pode dizer. Existe contudo, na minha perspectiva, um tema unificador (quase omnipresente através de uma personagem, que não sendo a principal, é central no romance, e à volta da qual todo ele gravita, que é a poetisa mexicana
Cesárea Tinajero), e esse tema é a literatura. Um livro sobre si próprio então. Na verdade, a literatura, juntamente com as temáticas da morte e da violência, é um tema recorrente na maior parte da obra do escritor Chileno. Grande parte das personagens são indivíduos que se relacionam, de algum modo, com a literatura, desde aspirantes a poetas, a editores ou académicos na área da literatura, numa história (ou várias) cravejadas de referência múltiplas, à Borges ou à Cortázar, de muitos escritores, estabelecendo tal como Borges um jogo onde já não sabemos o que é real ou fictício (lembro-me agora do escritor Ménard, que nas Ficções do escritor Argentino, aparece como o homem que plagiou o Quixote de Cervantes). E é então com estas personagens que tudo se passa, e este tudo é mesmo tudo aquilo que se poderia imaginar que poderia ocorrer numa história. O livro tem três partes. A primeira e última partes decorrem em 1975-1976, e estão na forma de diário de um jovem, acabado de entrar na universidade, que se junta a um movimento literário, o 'Realismo Visceral', onde Bolaño satiriza o movimento que ele próprio fundara com os amigos quando tinha aproximadamente a mesma idade, e ao qual pertencem os detectives selvagens Arturo Belano e Ulises Lima, onde o primeiro é um alter-ego do autor que aparece também em outras obras, e que levam uma vida a vagabundear e a 'malhar' em Octavio Paz, roubando, dormindo e tomando banho com os livros, e a beber o saudoso Mezcal 'Los Suicidas'. O meu método de leitura do livro percorrendo a invicta assemelhou-se em grande parte aos real-visceralistas. Na parte central, e que constitui o grosso do romance, assistimos a um desfilar de cerca de 50 narradores, com depoimentos que varrem o período 1976-1996, por todo o planeta, desde o México, e o seu místico deserto de Sonora, onde existe a tal cidade de Santa Teresa (versão fictícia de Ciudad Juárez, a cidade mais perigosa do mundo, e que constitui a ideia de Bolaño daquilo que pode ser o Inferno, tal como Veneza é a sua ideia de paraíso, http://2666.blogs.sapo.pt/19196.html), Managua na Nicaragua dos Sandinistas na década de 80, Barcelona, Viena, Paris, ou em Israel.

Quanto ao modus operandi de Bolaño em termos de escrita, aquilo que podemos dizer é que apresenta um dissimulado e refinado humor mordaz, feroz e cáustico em muitas ocasiões, numa escrita delirante, vertiginosa, uma verdadeira torrente, onde a narrativa 'come' os espaços e o tempo ditos normais. Uma escrita única, como nunca me lembro de ver outra, radicalmente diferente da habitual da América latina, muitíssimo distante do realismo mágico das árvores caminhantes e das virgens flutuadoras que caracteriza Gabriel García Márquez ou os seus conterrâneos
Isabel Allende e Sepúlveda e o já citado mexicano Paz. Bolaño deve as suas inflências dentro da esfera latino-americana essencialmente a Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Nicanor Parra, (um dos expoentes da família Parra) que eu costumo dizer que são mais do tipo surrealismo mágico, apesar de terem sido fulcrais para o estabelecimento do estilo dos autores mencionados atrás. Bolaño herda esse surrealismo, e funde-o com a realidade da loucura e da demência, da vingança, da violência e dos crimes, e essencialmente, o Mal e a Arte, e a relação entre estes. Como já alguém disse antes de mim: ' Ninguém escreverá como ele'.

Um excerto do texto: http://bibliotecariodebabel.com/geral/e-um-dia-a-obra-morre/
Uma entrevista: http://bibliotecariodebabel.com/blogosfera/as-respostas-de-bolano/