sábado, 28 de julho de 2012

Calcorrear

O que os nossos olhos vêem pode ter um poderoso healing effect. Já deixei transparecer isto em alguns posts. O Porto pode fornecer-nos essa visão que tem esse tal healing effect. Quando algo não está bem, calcorreia-se a cidade, de preferência com alguém e vai-se olhando. 'Viajar é olhar' dizia Sophia de Mello Breyner ao Miguel Sousa Tavares, conforme este conta num dado livro de viagens cujo título já não recordo, e que não estou com pachorra de ir procurar para encontrar o título. Também se pode ir sozinho. Aliás nunca se está sozinho numa cidade como o Porto, a cidade vai-nos acompanhando, não como acontece noutras cidades, em que é o rebuliço humano que nos acompanha. Mas o que é certo é que a cidade nos acompanha, eu é que não tenho arte poética suficiente para explicar, ou propor, ou sugerir como é que julgo que esse acompanhamento se dá. Indo sozinho é um pouquito estranho e talvez deprimente para quem já está deprimido, mas pronto, deprime-se um bocado. Uma vez ouvi um indivíduo dizer que uma dada janela já empenou o que tinha a empenar, aqui é mais ou menos parecido, já deprimiu o que tinha a deprimir. Mas geralmente, e isto acontece sempre (pelo menos costuma assim ser), ao calcorrear a cidade (gosto da palavra calcorrear), a dada altura, numa dada rua, a luz entra num ângulo certo, nas proporções certas (luz de um dia estival, como foi hoje, ou aquela cor pardacenta bem típica, ambos são bonitos), e faz uma imagem bonita, e então o problema está resolvido.

Este naco de texto está ridiculamente simplista, e porventura cheio de equívocos. Às vezes assim tem de ser...

Não consigo arranjar título para esta treta

Ao que parece, a Europa-América faliu. Resta-me primeiramente lamentar esta falência de uma editora que tão importante foi na divulgação de literatura de qualidade em Portugal. Os despojos da guerra podem ser vistos, por exemplo, na loja da rua 31 de Janeiro, na Invicta. A montra está tapada. Mas mesmo ao lado da porta, há um bocado destapado onde estão colocados alguns títulos, um deles Mein Kampf, do cabrão do Hitler. Estão lá outros livros, por detrás de um vidro completamente conspurcado, mas que se apresenta imaculadamente inteiro. Os livros estão completamente à mostra e ainda ninguém os roubou. Só há uma explicação, a falta de cultura dos indivíduos que se dedicam ao roubo. Isto porque os livros são uma coisa que, estou a crer, vale a pena roubar, deus com toda a certeza perdoaria o infeliz. Esta falta de cultura dos delinquentes, já certa vez ouvi (ou li) o Carlos Tê a falar dela, nos anos 70 os flipados ainda sabiam quem era o Lou Reed. Hoje não sabem quem é a Lady Gágá, e não estou a querer denegrir a señorita. Só assim é possível que, meses depois da falência ainda lá estejam os ditos livros. Eu até estou a precisar de um livro do Hitler para por a secar ao sol na corda da roupa para fazer peso....

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os Filhos da Vergonha

Há aproximadamente meia hora atrás assistiu-se a um episódio lamentável no debate do Estado da Nação na Assembleia da República, o qual me revoltou profundamente e me impeliu a escrever esta breve prosa.

Após um discurso na tribuna por parte do líder do Partido Socialista, seguiu-se uma intervenção na mesma tribuna de Luís Montenegro do PSD. Não vou comentar o conteúdo político e ideológico levado a cabo pelo PS. Vou sim falar de outro nível, de algo mais fundamental, mais basilar, e, a ver bem as coisas, mais grave. Para isso, refiro-me exclusivamente ao conteúdo factual do discurso de António José Seguro. Esse conteúdo factual consiste dos indesmentíveis números do desemprego na população deste país, em particular do desemprego jovem, e dos conhecidos casos de pessoas que neste país têm muitas dificuldades em aceder ao Serviço Nacional de Saúde (por vezes adiando o recurso a esse serviço, adiando a melhoria na sua saúde, aguardando por capacidade nas suas finanças para o fazer) em virtude da implementação de taxas moderadoras assassinas. Estes são apenas exemplos de alguns desses factos que efectivamente ocorrem na sociedade portuguesa. Repito: FACTOS. Depois do discurso que mencionou estes factos para tentar estabelecer uma posição política, eis que aparece o senhor Luís Montenegro do PSD, e na sua primeira frase proclama que se assistira a 24 minutos de banalidades por parte do dirigente socialista, frase a que se seguiu um aplauso de uma vasta camada das bancadas da maioria (talvez pudesse dizer de toda a bancada, mas por uma questão de rigor admito apenas aquilo que vi). Ora bem, ao dizer isto, o senhor do PSD disse que todos estes dramas sociais são banalidades. Esta classificação é mais uma vez um insulto às pessoas que por essas situações passam. Mas mais do que isso, pois qualquer dicionário nos indica que insignificância e vulgaridade são sinónimos de banalidade, e agora sim, atribuir o título de banalidade a estes factos dramáticos é já uma afirmação política. Na verdade, é mais: é uma afirmação de carácter e de moralidade (neste caso, ambos absolutamente deploráveis) e uma afirmação que demonstra um humanismo quase inexistente. Uma das pessoas que vi a aplaudirem esta frase que abriu o discurso foi o senhor Carlos Abreu Amorim, pessoa a que eu reconhecia méritos, antes de assumir funções de deputado, e à qual, evidentemente, continuo a reconhecer. Mas estamos a falar de algo para além desses méritos, da inteligência, ou da sua capacidade intelectual, como já disse, estamos a falar da moralidade, do carácter e dos princípios do indivíduo. Assim, a figura que depois se assume como a única possível mãe de toda esta gente que aplaudiu é a VERGONHA, daí que estes sejam Os Filhos da Vergonha. Alguns, acredito, poderão, no fim do dia, olhando em retrospectiva, sentir essa mesma Vergonha a percorrer-lhes o espírito, aquela que foi a Mãe deles naquele momento de aplauso. Outros, e agora que o cartão de cidadão já não contém a filiação do indivíduo, nunca quererão nem sentirão essa maternidade, mas tal não interessa porque tal como na realidade, o filho não pode escolher a mãe, e esta será sempre sua até ao fim da sua vida.