quarta-feira, 11 de julho de 2012

Os Filhos da Vergonha

Há aproximadamente meia hora atrás assistiu-se a um episódio lamentável no debate do Estado da Nação na Assembleia da República, o qual me revoltou profundamente e me impeliu a escrever esta breve prosa.

Após um discurso na tribuna por parte do líder do Partido Socialista, seguiu-se uma intervenção na mesma tribuna de Luís Montenegro do PSD. Não vou comentar o conteúdo político e ideológico levado a cabo pelo PS. Vou sim falar de outro nível, de algo mais fundamental, mais basilar, e, a ver bem as coisas, mais grave. Para isso, refiro-me exclusivamente ao conteúdo factual do discurso de António José Seguro. Esse conteúdo factual consiste dos indesmentíveis números do desemprego na população deste país, em particular do desemprego jovem, e dos conhecidos casos de pessoas que neste país têm muitas dificuldades em aceder ao Serviço Nacional de Saúde (por vezes adiando o recurso a esse serviço, adiando a melhoria na sua saúde, aguardando por capacidade nas suas finanças para o fazer) em virtude da implementação de taxas moderadoras assassinas. Estes são apenas exemplos de alguns desses factos que efectivamente ocorrem na sociedade portuguesa. Repito: FACTOS. Depois do discurso que mencionou estes factos para tentar estabelecer uma posição política, eis que aparece o senhor Luís Montenegro do PSD, e na sua primeira frase proclama que se assistira a 24 minutos de banalidades por parte do dirigente socialista, frase a que se seguiu um aplauso de uma vasta camada das bancadas da maioria (talvez pudesse dizer de toda a bancada, mas por uma questão de rigor admito apenas aquilo que vi). Ora bem, ao dizer isto, o senhor do PSD disse que todos estes dramas sociais são banalidades. Esta classificação é mais uma vez um insulto às pessoas que por essas situações passam. Mas mais do que isso, pois qualquer dicionário nos indica que insignificância e vulgaridade são sinónimos de banalidade, e agora sim, atribuir o título de banalidade a estes factos dramáticos é já uma afirmação política. Na verdade, é mais: é uma afirmação de carácter e de moralidade (neste caso, ambos absolutamente deploráveis) e uma afirmação que demonstra um humanismo quase inexistente. Uma das pessoas que vi a aplaudirem esta frase que abriu o discurso foi o senhor Carlos Abreu Amorim, pessoa a que eu reconhecia méritos, antes de assumir funções de deputado, e à qual, evidentemente, continuo a reconhecer. Mas estamos a falar de algo para além desses méritos, da inteligência, ou da sua capacidade intelectual, como já disse, estamos a falar da moralidade, do carácter e dos princípios do indivíduo. Assim, a figura que depois se assume como a única possível mãe de toda esta gente que aplaudiu é a VERGONHA, daí que estes sejam Os Filhos da Vergonha. Alguns, acredito, poderão, no fim do dia, olhando em retrospectiva, sentir essa mesma Vergonha a percorrer-lhes o espírito, aquela que foi a Mãe deles naquele momento de aplauso. Outros, e agora que o cartão de cidadão já não contém a filiação do indivíduo, nunca quererão nem sentirão essa maternidade, mas tal não interessa porque tal como na realidade, o filho não pode escolher a mãe, e esta será sempre sua até ao fim da sua vida.

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