segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O Boavista

Preto e branco, axadrezado. São estas as cores e o padrão da nossa camisola, celebremente baptizadas de camisolas esquisitas. De facto são mesmo esquisitas, tenho de admitir, mas têm piada.
A minha família tem uma relação forte com o Boavista. Já sabia disso quando era pequeno. Via os símbolos cá em casa. Mas o que inicialmente me atraiu foi o facto de achar piada a camisolas assim. Ninguém mais jogava com camisolas daquele tipo. Era giro. Durante grande parte do meu início de vida, não ligava muito a futebol e era mesmo só atracção pelas camisolas. Apenas olhando para a camisola, não havia clube de que eu gostasse mais. Comecei a ver para lá disso através de vários acontecimentos, que não consigo ordenar cronologicamente. 
Por exemplo, lembro-me de ir ao estádio do Bessa, passando por um extinto centro comercial da Avenida da Boavista, o Dallas. Estive no relvado, visitei o museu, assisti à equipa a treinar, sentado na bancada do velho estádio, sem cadeiras, apenas com degraus. Lembro-me de no mesmo Dallas, com o meu pai, termos encontrado um jogador que o meu pai me disse chamar-se Jimmy (conhecido por Jimmy Hasselbink fora de Portugal). A partir daí passei a saber os nomes dos jogadores. Este episódio terá sido em 1996 ou 1997. E este Jimmy foi durante essa época que cá passou o meu ídolo, plenamente justificado pela enorme quantidade de golos que marcava. Lembro-me de ver jogos no estádio, mas não consegui guardar nem os adversários nem os resultados na memória. Lembro-me de o meu pai estar a conversar na rua com o Mário Reis, que era treinador do Boavista, com o meu pai a transmitir-lhe uma qualquer opinião de treinador de bancada. Ainda hoje, volta e meia, encontramos o mesmo Mário Reis que ainda se recorda desse episódio! Outro acontecimento importantíssimo foi em 1997, num dia de muito calor. Jogámos contra uns vermelhos que eram de Lisboa, também conhecidos como Benfica. Ganhámos 3 a 2, e levantámos a taça no fim. Aí percebi que trazíamos taças para casa! Estava em casa do meu avô, mesmo no centro do Porto. Eu vi na televisão, ele ouviu na rádio (hábito antigo) no outro lado da casa, em plena alfaiataria. Ia ter com ele aos gritos quando marcávamos. Não fiz o mesmo quando o Benfica marcava. Lembro-me dos golos: dois do Sánchez (um golo a 30 e tal metros da baliza) e outro do Nuno Gomes. No mesmo dia, ao fim da tarde, lembro-me de passar na Avenida dos Aliados e ver uma enorme festa. Preto e branco, e aqui e acolá tons de azul de adeptos do F.C. Porto. Passado uns meses ganhámos a supertaça ao Porto, desta vez no estádio das Antas onde eu costumava passar de autocarro. Estes foram os episódios que julgo que foram os primeiros no que diz respeito à minha relação com o Boavista. A partir daqui lembro-me bem de tudo.
Lembro-me bem de muitos jogos, da conquista do campeonato, de ver equipas e jogadores extraordinários a jogar. Lembro de ver a constelação de estrelas do Manchester United a jogar no Bessa, do Liverpool, da Roma, do Borussia Dortmund (jogava o Köhler, com 2 metros de altura na frente de ataque), do Bayern München com o intratável guarda-redes Oliver Kahn. Convém também falar dos momentos difíceis, dos momentos de derrota. Ficava triste, evidentemente, mas nunca ficava totalmente abalado. Creio que só por uma vez fiquei totalmente abalado. Foi em 2003, contra o Celtic, no Bessa. O Sueco Larsson marcou a 10 minutos do fim e fomos eliminados na meia final da taça UEFA. Essa sim, foi difícil. 
Depois passámos a ser uma equipa de meio da tabela, digamos assim. E tal não me deixou desgostoso. Em Portugal o futebol é assim, esporadicamente, os pequenos têm o seu espaço. O Braga com a sua taça da Liga, ou a Taça de Portugal da Académica ou do Vitória de Guimarães nos últimos anos. Mereceram-no. Nós tivemos o nosso espaço e momento, que nos permitiu construir o 4º maior palmarés do futebol português. Isso ninguém apagará e constitui parte importante do meu orgulho de ser boavisteiro. Continuávamos a ser um 'outsider' que tinha tido um enorme momento positivo em tempos recentes, e estávamos a disputar os jogos contra os grandes e contra outros que ambicionavam também eles serem 'outsiders' brevemente, ou contra outros que se tentavam afirmar no lote dos membros da primeira divisão, como nós, na década de 60. Aquilo que me deixou mesmo desgostoso foi na verdade um empate, em 2008, no Bessa, 0 a 0 com o Braga. Pairava no ar que aquele seria o último jogo do Boavista na primeira liga, e fruto da situação periclitante do clube, talvez o último jogo da história do nosso clube centenário. O ambiente no final era pior do que qualquer derrota. Era pior porque fomos derrotados fora do campo, lá dentro tínhamos feito o suficiente. 
Felizmente, esse jogo não foi o último. Apoiei o Boavista da mesma maneira de sempre nestes últimos anos. E apoiarei sempre, na primeira, na segunda, ou na distrital. Temos 110 anos de história, e somos uma das mais importantes instituições desportivas portugueses, e em particular nesse enorme desporto que é o futebol. O futebol é um jogo, e o mais importante é tentar jogá-lo, e foi através do que jogámos que conquistámos lugar na primeira divisão na década de 60 e de onde fomos corridos à pedrada em 2008. É por isso que acho que merecemos jogar, e jogar para tentar ganhar os jogos. 
Na próxima época vamos tentar fazê-lo. Será muito difícil mantermo-nos no topo, mas é possível. Lá é o nosso lugar a jogar contra os melhores do futebol luso. Sou portuense, tripeiro orgulhoso, e defendo um dos clubes desta grandiosa cidade. Sou do Boavista! 2013.  5 anos depois da sentença de 'quase-morte' e ainda estamos vivos!

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