quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Livros em Portugal

Ora bem, isto é para dar conta do seguinte. Tenho dificuldade em entender o mercado livreiro em Portugal. Eu simplesmente não alinho na ideia de que um livro para ser considerado bom tem de passar o teste do tempo. Precisa do tempo para a aclamação, não para ser bom. Por exemplo, 'Os Maias', enxovalhado quando saiu em 1888 (é fácil perceber porquê, era um retrato demasiado brutal do Portugal da época), hoje aclamado como obra-prima. Mas em 1888, no mesmíssimo dia em que o Chardron, da lendária livraria Lello, na época livraria Chardron, no Porto, recebeu o manuscrito, já era uma obra-prima, já era bom. Dito isto, eu não sou um 'leitor' de clássicos, no sentido em que não me restrinjo a eles. Na verdade, não me restrinjo a nada, mas até acho que estou mais próximo de o fazer relativamente a literatura mais recente, que ocupou, até agora, um maior volume das minhas leituras. Julgo que tenho aumentado, aos poucos, o volume dos ditos clássicos nas minhas leituras, e não me arrependo disso. O ideal seria uma divisão bem equitativa, que, pelas razões que acima explicitei, nunca deixe de fora a literatura que se vai editando. De um modo mais brutal poderia dizer que não respeito sacramentalmente os ditos clássicos. Por clássicos entendo a fórmula mais habitual da definição: um livro já com alguns anos que adquiriu aquilo que se chama um lugar na história da literatura.

Voltando ao fulcro, o parágrafo anterior foi só um introito. Comecei mencionando que tinha dificuldade em entender o mercado livreiro em Portugal. Tenho comprado cada vez menos livros em grandes livrarias, como Fnac's, Bertrand's, etc.. Geralmente só o faço com livros novos, que saíram acabaram de sair, portugueses ou estrangeiros. De resto, compra-se mais na internet, usados (geralmente em bom estado), ou então em alfarrabistas. Mesmo livros relativamente recentes podem ser comprados usados na internet a preço bastante mais baixo, isto se uma pessoa tiver paciência para esperar. E tudo isto é porque edições novas têm preços absolutamente inacreditáveis, particularmente quando se faz uma tradução de algo, que ou nunca foi traduzido ou estava esgotado. Por exemplo, se eu quiser ler, (e gostaria de o fazer), 'O Homem Sem Qualidades', de Musil, teria de gastar, em três volumes, imagine-se, quase 80 euros, mais de 25 euros em cada livro. Em inglês compraria esta obra, num volume único e custava-me nem 25 euros, parperback claro, letra que nos obriga a nos munirmos de uma lupa do carago, mas acessível. Isto porque, depois de muitos anos o livro esgotado e desaparecido (havia sido editado pela colecção 'Dois Mundos', Livros do Brasil), fez-se uma nova tradução e foi editado novamente. Claro que teria de ser um livro caro, é uma obra gigante. Claro que estava indisponível. Pois bem, tornaram-na disponível da maneira mais cara possível, e tão cedo não a irei ler: até há algum tempo atrás seria porque não tinha dinheiro para isso. Agora, até poderia comprar, mas é absurdo com este preço. Não era possível simplesmente comprar os direitos da edição que estava esgotada? Seria logo mais barato pois não necessitaria de nova tradução. Não era possível uma edição mais barata, tipo bolso, em vários volumes ou num só? Assim não, não a comprarei, acho ridículo. Esperarei pelo dia em que num alfarrabista me apareça à frente o livro, (costumo ter sorte nestas coisas), e comprá-lo-ei na altura. A mesma coisa acontece em muitas mais obras. Outro exemplo: gostava de ler Proust, 'Em Busca do Tempo Perdido'. Comprar os sete volumes da tradução da Relógio D'Água custará 150 euros! (Estou a rir e a chorar por dentro). Por que não fazer uma reedição mais em conta destes sete volumes? Repare-se no modo como isto dificulta quem quer ler os clássicos, aqueles que os intelectuais dizem que são livros que toda a gente deveria de ler. Se essa pessoa os tiver em casa, tem. E eu tenho muitos. Se os não tiver, e quiser lê-los, azar, abra os cordões à bolsa. Acho lamentável.

Em suma, era isto a que eu me referia quando disse não entender o mercado livreiro em Portugal. Quando se trata de editar alguma coisa com uma nova tradução, por exemplo quando a anterior está, ou esgotada, ou difícil de encontrar, impreterivelmente, a opção editorial que é tomada pelas editoras é a mais cara, e por conseguinte, a mais inacessível aos leitores. Ocorrendo isto com os clássicos que se pretendem universais, estamos numa contradição de palavras e actos difícil de levantar. Felizmente que com uma visita ao alfarrabista isto se vai resolvendo, se bem que não se pode ir com uma ideia fixa neste ou naquele: a experiência diz-me que é má estratégia. Vai-se e vê-se o que há, e há-de haver algo interessante. E vão-se resolvendo estes dilemas à nossa maneira.