segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Sobre a guerra que se desenrola

Tenho ouvido e lido apologias de uma intervenção militar severa na Síria, contra o Estado Islâmico. Mais do que isso, tenho ouvido apologias do uso da força, toda a que se tenha disponível (e a França é uma país poderoso nesse aspecto), pois todas as guerras têm excessos. Citam os excessos aliados, na 2ª guerra. Um falácia, conforme é fácil compreender. Na segunda guerra visava-se o enfraquecimento dos dispositivos militares adversários (alemães e japonenses), que certamente mataria muitos civis, mas que acabaria como uma guerra tradicional acaba: anexação de parte do território (ocupação soviética da Berlim, culminando com a colocação da bandeira vermelha na varanda do Reichstag, que se transformou numa icónica fotografia), ou capitulação do adversário (os japoneses assinaram a sua capitulação a bordo do navio de guerra americano USS Missouri, momento registado noutra fotografia icónica da guerra). O problema é que agora a guerra não é contra um país como a Alemanha ou o Japão. É contra o terrorismo, que, até ver, não pode ser anexado, porque não é um território. E, sabemo-lo bem, não capitulará. Portanto, qualquer paralelo com a 2ª guerra mundial é absurdo. É claro que o Estado Islâmico pode ser derrotado, e quase forçado a deixar de existir. Significa isso o fim do terrorismo? Claro que não. Pode significar a destruição do Estado Islâmico e fazer com que este se torne uma seita menos relevante no contexto do fundamentalismo Islâmico, tal como a al-Quaeda também se tornou menos relevante nos últimos anos, que coincidiu com um fortalecimento evidente do Estado Islâmico, mas não mais do que isso. Tenho até razões para crer que intervenções militares, de algum modo indiscriminadas relativamente ao uso da força sobre uma dada área do globo, podem contribuir e muito para um aumento da possibilidade de surgimento ou ressurgimento de um movimento que de certo modo tome o lugar do estado Islâmico como a principal organização fundamentalista islâmica terrorista do mundo, um sucedâneo, não no sentido histórico de formação da organização, mas no sentido em que toma o lugar central no terrorismo internacional. Para se acabar com isto só há um modo: as intervenções, a existirem, têm de ser cuidadosas, de modo a não aumentar a intensidade da potencial ameaça terrorista. De resto, este princípio tem de ser transversal, e não apenas relativamente a operações militarizadas, desde bombardeamento, operações terrestres ou os drones, mas também nas atitudes políticas do ocidente que interferem de modo decisivo na economia e relações sociais dos países do Médio Oriente, a começar pelo centro de tudo, a Arábia Saudita. A este propósito, sugiro este artigo que hoje li: http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/aug/31/combat-terror-end-support-saudi-arabia-dictatorships-fundamentalism?CMP=share_btn_fb. Do modo como vejo a questão, acho que é por aqui que devemos de ir, sob pena de o combate ao terrorismo dos dias de hoje (e consequente efectiva e provável diminuição da ameaça hoje) contribua grandemente para o aumento da ameaça amanhã, o que resultará na perpetuação do terrorismo deste tipo enquanto não houver um outro paradigma que veja mais à frente, para reduzir o terrorismo deste tipo à quase inexistência.

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