sexta-feira, 8 de abril de 2016

Banda Sonora de uma cidade

Às vezes pergunto-me se uma cidade tem uma banda sonora. Acho que sim. Cada qual pode ter uma banda sonora para uma cidade. Às vezes pode é ser mais difícil descobri-la. Começo pelo Porto, tinha que ser, o que conheço melhor. O Porto tem diversas coisas que se podem servir como banda sonora. Algumas mais antigas outras recentes. Algumas delas já falei aqui. Pode ser claro o Rui Veloso, o Pedro Abrunhosa os Jáfumega. Há dentro das músicas referências óbvias ao Porto. Por exemplo, ainda agora estava a ouvir Kasbah, onde, numa letra de Carlos Tê, os Jafumega cantam que numa noite de lua cheia em que o Vimara Peres estava a espreitar, alguém foi para à Rua Escura. Esta é a parte óbvia, tal como quando se fala da Cantareira do Chico Fininho, ou do Pedro Abrunhosa que na música 'Socorro' do grandíssimo 'Viagens', diz 'vi-te na Indústria a dançar ao som do Prince'. Mas há outra menos óbvia. Que é que mesmo quando não se fala explicitamente no Porto, ele parece estar lá de alguma maneira. Isto para mim é perfeitamente claro quando oiço o Pedro Abrunhosa, ou quando oiço Jáfumega, ou as letras do Carlos Tê. O Porto quase que está lá sem o estar explicitamente. Concluo algo que me parece razoável: esta mesma sensação de se ouvir o Porto nas letras destes e outros artistas deve-se ao facto de essas mesmas letras terem lá bem dentro delas algo que creio ser a 'Cultura do Porto'. A cultura do Porto de dizer 'Galinheiro' em vez de 'Geral' quando se vai ao Coliseu, e outras coisas que tais. Por vezes não só na gramática e nas palavras usadas, mas também na maneira como se escolhem essas palavras para fazer um quadro desta ou daquela situação, quadros frequentemente sombrios, tal como o Porto ele mesmo. Algo mais subtil do que uma referência chapada, se calhar mais na onda dos 'Dias Atlânticos' dos BAN, 'brisas e amor, prazer pelo prazer'. Os dias de que essa música fala são claramente dias do Porto. Cada vez mais me convenço, e digo isto muitas vezes, que o Porto é uma cidade completamente Atlântica, e Lisboa é mediterrânica, e esta é a maneira mais fácil de estabelecer uma distinção não muito redutora (como a maior parte deste tipo de distinções tem tendência para ser) entre as duas cidades.  

Musicalmente falando, também às vezes sinto que algo semelhante se passa. O Porto tem de facto uma cultura musical forte, e às vezes parece-me que também a música tem algo lá dentro relacionado com essa cultura do Porto que já referi. De resto, se calhar não é assim tão de admirar numa cidade que tem mais grupos musicais por metro quadrado que qualquer outra em Portugal. Talvez seja assim que se faz uma banda sonora de uma cidade...

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