sábado, 29 de outubro de 2016

Bob Dylan e o Nobel

Ora bem, vou tentar, digamos assim, por um pouco os pontos nos is naquilo que é a minha opinião relativamente à atribuição do prémio Nobel da Literatura deste ano de 2016 ao grande Bob Dylan. 

Eu tento fazer aquilo que acho fundamental, que julgo ser pôr o foco nos méritos literários do candidato, e não na estéril discussão a que tenho assistido repetidamente sobre a alta ou baixa, gorda ou magra cultura. 
Primeiro faço um aparte, que julgo necessário. Ainda ontem, estava numa livraria Bertrand, e nuns escaparates bem colocados estavam livros do Bob Dylan. Eram livros com as letras das canções por ele editadas. Um edição bilingue, bonita. É óbvio que as livrarias não deverão fazer muito dinheiro com o Nobel deste ano. Principalmente porque, quem estiver em dúvida se compra ou não o Bob Dylan, que possa não conhecer, e pondo-me eu nessa situação, preferiria comprar um disco em vez de comprar um livro. Isto porque eu acho sempre que ler as letras naqueles dois volumes de letras de canções pode ser muito interessante para ter um compêndio mais fácil de consultar do que os livretes dos discos, mas, para mim, e admitido que possa haver quem não esteja de acordo, ler aquilo é apenas ver metade do génio do Bob Dylan. O Bob Dylan completo é aquilo com a música, é os discos. Tentando ser mais explícito, o primeiro verso, espectacular diga-se, de 'All Along the Watchtower' diz: 'There must some kind of way outta here'. Acho que este verso tem qualidades imensas, mas quando por exemplo há algum tempo atrás fiz um post com ele na minha página no Facebook, de certo modo, quando o publiquei, queria dizer mais do que apenas estas palavras. Isto porque, para mim, estas palavras não são apenas isso, mas ressoam na minha cabeça cantadas naquela música soberba (de facto, ressoam-me até mais da maneira como o Hendrix as cantou, numa versão ainda mais genial que a de Dylan (é raro a versão ser melhor do que o original, e o próprio Dylan concorda que a versão Hendrix é genial!)). O mesmo poderia dizer de outros versos como por exemplo 'With no Direction Home', também do Dylan, ou de 'The World on you Depends, our life will never end', um verso Riders on the Storm do Doors, letra do Jim Morrison. 
Isto faz-me olhar para Dylan como um cantor, e dificulta-me olhá-lo como escritor e homem da literatura. Ou, doutro modo, dificulta-me e tolda-me aquilo que deveria de ser uma análise puramente literária da sua obra (principalmente das suas canções, que foram o que lhe valeu o prémio, o resto da sua obra desconheço). Por causa disto, tenho de o admitir, a minha opinião pode ser um pouco suspeita.

Já deu para descortinar um pouco o local para onde me dirijo com esta prosa. Criou-se nestes tempos desde o dia da atribuição do prémio a noção de que quem criticou essa atribuição o fazia por defender (e nalguns casos pertencer) a uma elite cultural que classifica a música popular como baixa cultura, ou cultura popular, contrariamente à cultura de verdade, a alta cultura. E também se ouvia dizerem que alguns destes elitistas tentavam até esconder esse elitismo dizendo que gostavam do Dylan. Não concordo com estas acusações pois este elitismo e a baixeza ou não da música popular nada tem que ver com a natureza deste prémio. O suposto elitista que achar que é mesmo baixa cultura e nada mais disser não está, claro, a discutir este prémio, que é um prémio de literatura, mas sim a discutir outra coisa qualquer. Ainda para mais, é difícil de que se trate de elitistas encapotados, que não devem ser muitos depois de na segunda metade do século XX a música dita popular ou ligeira, como o Rock por exemplo, ter assumido um papel de tal relevância e influência nas vidas de tanta gente que não tem de se preocupar minimamente com o facto de ser alta ou baixa cultura. E como eu acredito que as pessoas dizem o que pensam, julgo mesmo que quem não concorda com a atribuição do prémio e diz gostar do Dylan está a ser completamente verdadeiro, não se tratando de um elitista escondido. E outra coisa que me faz julgar isto é que eu próprio tenho uma opinião que vai neste sentido. Gosto, e muito do Dylan, que considero um fantástico cantautor e um genial expoente da arte a que comummente podemos chamar de música popular. Uma arte que, para mim, e quem me conhece sabe muito bem que assim penso, é tão alta cultura como qualquer outra, e que até desempenhou e desempenha na minha vida um papel de maior destaque do que outras formas de cultura. Mais frequente do que outras geralmente tidas como alta cultura como o teatro, ou a pintura da qual pouco ou nada percebo, a ópera que me é largamente desconhecida, tudo coisas que aprecio de vez em quando, mas não tão ardentemente como a música dita popular. O que pode rivalizar com a importância da música ligeira na minha vida é o cinema e a literatura, e em menor proporção a música clássica, também chamada de 'erudita' (um termo que detesto, pois é totalmente absurdo) e dentro desta, em ainda menor proporção, a ópera. Nisto o Dylan é genial. Mas, mesmo considerando as dificuldades e enviesamentos que a minha opinião pode ter (conforme descrevi atrás), julgo que os seus méritos literários não são tais que lhe deva ser atribuído o prémio Nobel, ainda para mais considerando a raridade com que poetas são galardoados com o prémio Nobel (devo também reconhecer os meus limitadíssimos conhecimentos de poesia). Se tivermos uma perspectiva um pouco mais global e analisarmos os méritos de Dylan comparativamente a literatura que não só poesia, ainda se torna mais difícil para mim concordar com este prémio.

Resta-me terminar com duas pequenas notas. A primeira tem que ver que esta é a minha análise literária ao Bob Dylan, a Academia Sueca tem obviamente mais capacidade do que eu para fazer esta análise (e mau seria se não a tivesse). Isto não me impede de pensar e repetir que este prémio foi mal entregue e que a academia se equivocou. A segunda tem que ver com o aquilo que eu acho do grande Bob Dylan. Acho o mesmo de sempre, o genial Bob Dylan continuará a acompanhar-me e a tocar no meu sistema de som. E sublinho porque isto é importante, não tem ponta de cinismo, e quem me conhece sabe-o muito bem: Gosto mesmo muito do Bob Dylan!

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

A Propósito de Erwin Sánchez

A propósito da saída do Erwin Sánchez do cargo de treinador do Boavista F. C., tenho a dizer o seguinte. Não concordo com a saída. Acho que essa mesma saída resulta de uma situação que, apesar de poder ser melhor do que aquilo que é, não é dramática, e a meu ver não justifica a saída do treinador. Quanto às declarações, foram infelizes, mas não mais do que isso. É óbvio, contudo, que existia uma total falta de empatia relativamente a Erwin Sánchez, tal como parece haver empatia relativa ao nosso novo treinador o Miguel Leal, que é, agora, o treinador de todos os boavisteiros. Lamento imenso que essa falta de empatia, que pode sempre ocorrer, se bem que a meu ver, exagerada e injustificada neste caso, tenha por vezes parecido mais do que isso, parecendo mesmo um ódio de alguns indivíduos (dos quais tenho dúvidas quanto a se são mesmo boavisteiros, e ainda mais dúvidas quanto às capacidades dos seus neurónios) a essa figura mítica que é o Erwin Sánchez. E isto preocupa-me, pois Erwin Sánchez é uma lenda do Boavista F. C., e como tal, tenho-lhe uma gratidão enorme, juntamente com a gratidão que julgo que ele também tem face aos boavisteiros e face a este clube que também é o clube dele. Espero, com toda a sinceridade, que ele não guarde rancor face ao que se passou nas últimas semanas. E julgo que isso não irá acontecer, pois acho que ele é mesmo boavisteiro como eu sou. Gostava de o encontrar na rua um dia destes e dizer-lhe aquilo que é verdade, que ele é o maior, e que os grandes boavisteiros, como ele sabe bem, lhe guardam uma gratidão imensa e uma amizade profunda por alguém que ficará nas páginas da historia deste grande clube para sempre. Erwin Platini Sánchez!