terça-feira, 8 de novembro de 2016

A propósito da Invicta e de Lisboa

Ora bem. Passei os últimos dias em Lisboa. Gosto de ir a Lisboa. Adoro lá passar uns dias. E, pensando, bem, julgo que não me importaria de por lá passar mais do que uns dias. Em Lisboa, mais do que ser a capital e um bocado maior do que o Porto (apesar de que engana, porque eu não considero, por exemplo, Matosinhos, como sendo diferente do Porto, e ninguém dá por isso quando se passa a rotunda da anémona, que na verdade teve que ver com o facto de o concelho do Porto não se ter estendido às localidades vizinhas, algo que aconteceu um pouco mais em Lisboa), mais do que a população (o dobro da do concelho do Porto, e uma área metropolitana de dois milhões e oitocentos mil habitantes, a do Porto tem um milhão e setecentos mil), é o Portugal diferente, e para mim, neste caso, diferente, significa o Portugal mediterrânico. O Porto é uma cidade atlântica. Havia uma música dos BAN chamada 'Dias Atlânticos', onde aqueles dias eram claramente no Porto. O tempo é melhor do que cá. Um pouco mais quente, mas mais relevante ainda, uma quantidade de chuva relativamente mais baixa. A juntar a isso, eu, que já raramente ando com guarda-chuva no Porto, e também não o faço em Lisboa, tenho sempre a sensação de que a chuva em Lisboa é menos fria, e molha menos do que no Porto. Gosto de caminhar por Lisboa, apesar de isso não ser muito fácil devido à orografia, mas de certo modo, o Porto também já é um pouco assim, e uma pessoa habitua-se, para além de que o esforço vale a pena, porque é andando a pé que melhor se é possuído pela cidade. Lisboa tem mesmo muitos turistas. Não me importo minimamente de andar por sítios onde está muita gente. Incomoda-me bastante, por exemplo, ser difícil arranjar uma esplanada onde se possa estar a sentir o barulho da cidade, barulho que não o ruído, onde não se consegue estar confortável. No Porto consegue-se arranjar, em Lisboa, pelo menos nas proximidades do centro, não. Por exemplo, na Brasileira... Mas isso tem já que ver com a minha maneira de ser. Não tenho qualquer prazer em estar num local onde só há ruído, a absorção daquilo que é a cidade é nula, por onde passam milhares de pessoas por hora. E isto, é por mim, e seria assim em qualquer cidade, não por ser em Lisboa. Prefiro estar num café, ou numa esplanada numa viela. Aí sente-se muito mais a cidade. De resto, é o que eu faço no Porto. Evito os locais como os primeiros que mencionei, e prefiro os segundo, mesmo que sejam aqueles sítios desconhecidos e esconsos. 
Prefiro o Porto a Lisboa, isso é óbvio, e acho que sempre preferirei. Sou um portuense, um tripeiro. Não porque nasci cá, isso foi apenas um feliz acaso que me deixa contente, um sítio bom para nascer. Mas sou portuense porque o Porto será sempre a minha casa. Se um dia também chamar a Lisboa uma minha casa, então também serei lisboeta, ou melhor, lisbonense, gosto muito mais desta segunda palavra. Quem chamar ao Porto a sua casa, será também portuense como eu. Apesar disto, muito provavelmente, sempre me sentirei mais portuense do que qualquer outra coisa. Há coisas que nunca mudam. O Porto também tem mais turistas. Mas não atingiu os níveis de Lisboa, e possivelmente não os atingirá. O Porto mudou um pouco, melhorou nalgumas coisas. O seu nível geral está, julgo eu, um pouco melhor. O Porto é, e sempre será, uma cidade interessantíssima. Agora, o que acontece é que está mais interessante para algumas camadas às quais não interessava tanto. Eu nasci em 1990. Tenho memória quase fotográfica desde a minha infância no que diz respeito a locais onde estive. O Porto sempre foi interessante, porque sempre foi 'O PORTO'. Quem se diz boquiaberto com o Porto de agora é um bocado totó, e geralmente são os mais provincianos em relação ao estrangeiro, e muito provavelmente, nunca conheceu bem o Porto. É claro que houve progressos e também retrocessos. O futuro nem sempre vai na melhor direcção. Vai na direcção que vai. O Porto vai por aí, e a meu ver, vai muito bem. Se continuar a ser Porto, e acho que continuará, não há nada a temer. Lisboa tem a meu ver um risco maior de perder a sua 'Lisboa'. E esse risco vem do facto de ser uma capital, de ser maior, de ter mais população, de ser mais central em Portugal (que é imensamente e excessivamente centralizado, vale a pena repetir). Há um risco maior, e algumas coisas creio que já se perderam, como aquilo que descrevi genericamente acima. Portugal é um país contemplativo, do silêncio, da poesia, da composição e apreciação das imagens. Em Lisboa há alguns sítios onde isto é já um pouco difícil. Pá, podíamos tentar fazer com que os turistas tivessem também um pouco disto, da contemplação, da poesia portuguesa, um país de quadros vivos. Fazia-lhes bem, principalmente aos do norte da Europa. Na calçada do Combro, que subia devagar, por causa da inclinação, mas também devido ao respirar de Lisboa naquela rua, fui empurrado por um indivíduo que me disse três vezes 'Excuse, me'. Claro que a minha reacção não foi rápida, não o poderia ser num passeio com um metro de largo. A terceira vez que me falou foi um grito. Não tenho nada contra turistas. Mas este era um turista mal educado, e tenho coisas contra pessoas mal educadas sejam turistas ou não. O George Steiner dizia que chegou a acreditar que o Turismo poderia ser uma grande revolução da educação, e creio que ele o dizia no sentido de uma maior compreensão entre os povos, por exemplo o Norte da Europa compreender o Sul da Europa como mais do que um lugar quase idílico e solarengo, onde se produz vinho e se rega a culinária toda com azeite, mas antes como um sítio em que se vive diferentemente, em que se contempla, em que existe o poetar ou o vadiar, o ser poeta à solta como dizia o Agostinho da Silva. Mas o Steiner disse também que já não acredita nisso. Pensado bem, eu sinceramente também não acredito. Mas talvez ainda se consiga alguma coisa a este respeito, quem sabe. Concluindo, se Lisboa perder a Lisboa que a torna naquilo que é, será lamentável, para Lisboa, para Portugal, e para mim, que como disse, gosto de Lisboa. Há um certo risco, mas espero e creio que tal não acontecerá. Lisboa será sempre Lisboa, o que é óptimo. O Porto será sempre o Porto, o que é maravilhoso!

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