quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Sobre a Economia

Tenho trabalhado em Matemática Aplicada, o que, não inevitavelmente, mas com naturalidade me levou a trabalhar em assuntos de certo modo relacionados com Economia. Claramente que há essencialmente duas maneiras típicas de uma pessoa com formação em Matemática trabalhar em assuntos mais económicos: ou algo de certo modo empírico, que possa envolver alguma estatística, como por exemplo econometria (que lamentavelmente, não poucas vezes é invadida por horrível estatística cuja metodologia é falseada), ou algo que envolva modelos, como por exemplo algo mais de teoria de jogos, equilíbrio geral etc..

Em condições normais, para aprender economia para poder trabalhar nestas coisas uma pessoa estuda esses modelos. A fundamentação e capacidade matemática já a tem da Matemática. É esta a melhor maneira de aprender economia? Tenho sérias dúvidas.

Cada vez mais me convenço, e este convencimento surgiu-me destacadamente nos últimos meses, que há duas coisas porventura muito mais essenciais para aprender economia. A primeira delas é estudar história económica. A segunda parece-me ser o estudo da história do pensamento económico. 

Estas duas coisas devem de ser coadjuvadas por aquilo que geralmente era designado por Economia Política, um termo que de certo modo caiu em desuso. Existe uma relação entre estas três coisas. A economia política é também uma ciência (vamos chamar-lhe ciência por momentos) histórica, cujo objecto de estudo é material histórico, e cujo método também deve algo à historiografia. Assim sendo, a economia política também envolve a história do pensamento económico. Quem estuda a história económica também está a estudar aquilo que fundamenta a economia política, e se a isso juntarmos o pensamento económico num dado período histórico já estamos a entrar naquilo que é a teorização da economia (política nesta caso). Convém neste momento relembrar que até ao século XVIII a economia não era vista como algo independente da filosofia. Isso apenas aconteceu a partir mais ou menos da revolução industrial, com o Adam Smith e outros, o mais relevante talvez seja o David Ricardo. 

É por isso que eu julgo estes pontos são talvez os mais essenciais para uma compreensão daquilo que é a economia, como um todo, e o fundamental da economia no mundo actual. É que estes pontos que citei têm em comum o facto de imporem um carácter altamente crítico a quem estuda e tenta aprender economia através deles. Enquanto a economia se chamou Economia Política, preservou grande parte carácter crítico, que se foi desvanescendo em favor da visão da economia como uma ciência como a matemática ou a física. Continuo a considerar esta visão crítica absolutamente fundamental para compreender a economia no mundo moderno, economia política, claro está, pois os assuntos (quase todos eles com forte componente política) por ela abordados enquanto assim foi designada continuam a ser os mais relevantes e os que operam na esfera mais influente na actualidade. Creio que a história da economia e do pensamento económico são fundamentais para esta visão crítica da economia, que acaba sendo aquela em que aprendemos mais e melhor. E é através dela que ficamos muito mais próximos de atingir aquele que para a Joan Robinson (uma das mais relevantes economistas do século XX) é o propósito, eminentemente crítico, aliás como o são todas as formas de combate à pseudo-ciência, de estudar economia:

"The purpose of studying economics is not to aquire a set of ready-made answers to economic questions, but to learn how to avoid being deceived by economists.


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